O mês de agosto começou com novidade para a arte paulistana, que nos dias 02 e 03, teve o prazer de apresentar ao apreciador da dança urbana e contemporânea, a estreia dos espetáculos “Beco” e “ANTI”, do T.F. Style Cia de Dança.
O ambiente já refletia a experiência que o espectador estava perto de vivenciar. Localizada na Zona Leste de São Paulo, a Vila Maria Zélia foi a primeira vila operária da cidade, sendo considerada um patrimônio histórico e um centro de arte e conhecimento cultural. Cada rachadura em suas paredes velhas, janela quebrada e móvel vintage, conta uma história. Uma poesia paralisada no tempo.
Assim, se aproveitando do clima, por que não dizer “macabro” do teatro, o T.F. Style uniu seus espetáculos, coreografados pelo americano Daniel Holt (ANTI), Igor Gasparini e Frank Tavantti (Beco), ao ambiente propício e ofereceu à plateia uma peculiar experiência de envolvimento entre a complexidade interior dos ali presentes, com o exterior que lhes rodeava.
Os dançarinos começam do lado de fora do teatro, emergindo do meio comum daqueles que os assistiam. Passos de dança únicos de cada elemento do grupo, unidos à andadas embaladas por muita pose, davam ritmo ao que parecia um flerte, um charmoso convite para que a plateia pudesse pegar a chave daquele galpão e adentrar além do que era considerado como “palco”, mas sim os medos, conflitos e carmas vividos por cada um.


Becos diversos, amores e desamores, pele à mostra, quatro giros em meio ao seu redor agachado. Com cada elevação de música, os personagens seguem uma jornada à sua possível libertação, primeiramente interna, para depois destruir as grades da janela. Os efeitos de luzes brincam com o corpo, refletindo o íntimo e a humanidade nas paredes em forma de sombras, que engolem os dançarinos, surpreendem o espectador e diverge da última luz que surgiu no meio de tudo.

De olhos e bocas cobertos, combinando com um figurino que traduz uma natureza exposta e doentia, os passos de dança se tornam cada vez mais psicodélicos: algo sem um nome exato, mas que brinca no meio fio de uma calçada entre o street dance e o contemporâneo, uma criação sem rótulo.
A dualidade é trabalhada ao longo de todo o espetáculo, seja do homem alto à garota pequena, da loucura mansa à sanidade insana, ou mesmo da saúde se tornando doença (prepare-se para tossir de forma contagiosa!). O bem e o mal ultrapassam a linguagem do tempo, quebrando a cronologia do costume, propondo o questionamento entre as mudanças de comportamento e suas variantes do que é correto e incorreto.

Tanto “ANTI”, quanto “Beco”, trazem a peculiaridade do fazer pensar e a dança balança o corpo do dançarino, do coreógrafo e da plateia, refletindo a complexidade do contexto apresentado. Ainda assim, quem for assistir, não se prenda ao seu literal significado, pois a maior graça está no que cada um pode interpretar por si mesmo e os efeitos que ambos geram em seu interior.
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