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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Mergulho na Honestidade

A madrugada é honesta
em suas palavras, escurecidas
como o tecido do céu
que acima se deita.

Palavras nuas,
sem vergonha do medo
e da natureza de sua pele,
cujo toque não se toca, se pronuncia.

Cruas até o limite da rima.
Tira as cobertas,
revela as simples verdades guardadas
nas mentiras que de dia foram contadas.

Eu sou escrito no poema da noite,
onde me vejo e retorno o olhar.
Os pés escorrem,
os dedos falam e a língua sente.

O vazio perfura, a expectativa vaza
e o momento é tão verdadeiro
que o silêncio que sobra se cala,
dando ouvidos à cantoria da intuição.

Soa-se belo na madrugada, sem nada.
E de repente, o que se escuta
só depende do outro,
que se deixa ir... aos sussurros.

Douglas Ibanez

13/10/2021 - 4h23



sábado, 4 de setembro de 2021

Rosa dos Ventos

Eu abro e

me permito pensar

na velocidade que penso, 

que outrora me enganou

como quem nada queria, 

mas me engolia por dentro

como dita a ansiedade. 


Eu me parto

em mil pedaços e

me permito partir 

vento a dentro, como

os farelos leves que caem 

das alturas sem medo

da partida. 


Eu me torno o

que me despi e me deixo levar

para longe o que me tornei, 

pois logo serei outro ao

retorno do vento e ele

será o mesmo que me despiu

no anseio da calma. 


Douglas Ibanez

(20/01/2021 - 1:30)

domingo, 29 de agosto de 2021

Você sabia das flores?

aos céus 

as flores se jogam. 

mãos levantadas, 

braços dançantes! 

a terra nos pés, entretanto,

sorri com a graça

de um milhão de certezas, 

tão incertas, 

que não fazia sentido nenhum tê-las.

mas a melodia...

essa estava entre os dedos

que tocavam as nuvens

e sentiam a grama

ao mesmo tempo


Douglas Ibanez

(16/08/2021)



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

O Café

Respiro

como se o amanhã não existisse,

pois ele de fato não estará lá

até que eu abra sua porta e

a atravesse,

com um pé diante do outro.


Nem mesmo a tarde sobrevive,

quando as manhãs são destruídas

com a amargura

que anseia todo o resto.

Este ainda para chegar, 

este ainda para ir embora.


Dou um passo descalço

na paz descalça, 

que se anuncia solo

como uma respiração calma

de bom dia, 

com toda a graça que posso suportar. 


É no silêncio que sinto 

aquele amargo cheiro flutuando, 

dançando em fumaças, 

me desejando continuações 

ensolaradas de mim mesmo, 

em uma versão estranha do que ainda virá. 


Não é uma previsão, 

muito menos de preciso conteúdo, 

mas é belo em seu sentido próprio, 

como se minha intuição pudesse, 

e ela pode, 

ler nas entrelinhas do ar, 


decifrando

e colhendo 

histórias que o meu íntimo ainda 

irá me mostrar de alguma forma. 

Eu toco as narrativas 

e meus dedos são varinhas


que deixam no ar o rastro, 

os desenhos que quero seguir. 

Um artista do meu tempo, do meu desejo,

fazendo espirais de um momento

só meu, 

sem permissão para o alheio.

Douglas Ibanez 

(24/12/2020 - 8h36)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Oração ao Nome

Em meus momentos de maior confusão, quando o tempo corria ao meu redor numa velocidade absurda, me tirando o ar e causando angústias que eu só havia visto em meus piores sonhos quando criança, eu costumava chamar nomes passados para me manterem ancorado naquele oceano, tão perto da terra à vista, diante da turbulência. 

Eles eram nomes muito diversos. Grafias e sons extremamente únicos, com barbas, cabelos longos, loiros e morenos, sorrisos inocentes e promessas de um dia daqui a um dia. Sem contar o anseio de descobertas que nunca foram e carências que me abraçaram pelas expectativas em minha cabeça de necessidade, talvez, crônica.

Só que eles me puxavam pelo pé e o que era salvação se tornou um erro. Me lembro de fechar os olhos, enquanto os monstros arranhavam por dentro as paredes do meu corpo, e fazer uma oração, mais rápida do que o meu medo poderia agir. Eu pedia pelo nome da vez. Soprava a vela e o repetia mil vezes para que ficasse, mas sem nunca realmente ficar, porque nunca estivera ali. 

Quando recebe um nome, isso quer dizer que é seu. Então porque cargas d'água eu queria o nome dos outros? Um finito punhado de letras com significado tão limitado quanto o tempo que o vento leva para bater na palma de sua mão e levá-lo para longe, deixando você finalmente perdido, rezando por um nome que não está lá. Que nunca esteve.

Por isso, a todos os escritos que já passaram, hoje eu peço licença e me recuso a lembrar de um outro nome que não seja o meu próprio, aquele que não se vai. Pois está atrelado em minhas veias, como um rio de águas escuras cheias de história. Isso não significa que nomes alheios não sejam belos ou relevantes, como árvores que brotam dessa calçada paulistana tão ambígua, muito pelo contrário! Eles me acompanham, só não são meus. 

Por isso, eu só peço a mim mesmo... me salve. Que seja você a abraçar o que me é vulnerável e o que conta histórias infiltradas no meu peito de maneira tão perpétua e imortal ao mesmo tempo. Pois é em seu nome, meu nome, que eu vejo a vida fazendo sentido, mesmo quando o medo sussurra exatamente o oposto. Sopre em meus ouvidos e me fortaleça, por favor. 

Obrigado, até aqui chegamos. 

Continuemos. 

Douglas Ibanez

(26/01/2021 - 2:31)



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Sol Oriens

Me apaixonei pela lua

Numa noite molhada,

No meio do vale, subindo a rua, 

O sereno no rosto e a vergonha sentada. 


Eu era uma estrela de brilho virgem

Que escrevia poemas em papéis quaisquer,

Incluindo problemas em qualquer vertigem

E comendo o mundo em pequena colher. 


Mas eu não podia competir com estrelas, 

Aleatórias ao redor da lua, 

Que gritavam em quantidade de centenas, 

Centelhas de vida que clamavam ser tuas. 


Eu era um invisível só dando voltas, 

Implorando por luzes que nem suas eram,

Caminhando por ruas de incertas rotas, 

Cujos olhos me injetou, enxergou e esperam.


Então percebi, sem deleites, 

Que o sol também era uma estrela.

Sem lua que o aceite! 

Com noite extrema vazando por minha ourela. 


Para que o escuro, que pertence ao luar, 

Com tantos brilhos ao seu dispor, 

Se um dia inteiro eu me permito pintar

Antes mesmo do sol se pôr?


Com dedos pontilhados,

Desenho aquarela no tecido do céu.

Do azul ao cinza e o laranja rosado, contemplado,

Daquilo que pertence ao meu sobrepor do véu.


Você tem um bonito sol, disse a si,

Uma estrela tranquila na minha manhã.

Não havia medo das chuvas daqui,

Enquanto faziam parte deste hoje-amanhã.


E eu espero, sinceramente, que a lua diante esteja

Daquilo que a alma nos conta nos sonhos.

Que a solidão, por difícil que seja, 

Lhe reflita na água seu estado risonho.


Não chore, 

Se erga!

Pegue o que lhe consome, 

Dance na luz e se veja.


Em mim, havia razões que se foram no porto,

Admirando as cortinas do que se cobria.

O sol, outrora tão virgem, outrora tão torto,

Se viu distante, se via morto, diante daquilo que ele agora vivia.


Douglas Ibanez 

(02/01/2019 - 2h04))




terça-feira, 18 de agosto de 2020

Eu, Bissexto


O relógio não gira,
só que o tempo passa direto
pelo meus dedos,
não como areia de ampulheta,
- antes fosse! -
mas como poeira que o tempo,
esse bendito tempo,
não contou em seus segundos.
Sabe aquele resto de tempo,
tão incontável,
tão esquecível,
que do resto vira resto?
Que vira bissexto?
Pois é isso que escrevo, todos os dias,
na poeira impregnada
nas paredes do meu quarto.
Eu me sinto bissexto, desde ontem,
ou seria desde março?
Talvez desde outubro desse ano
que ainda não chegou e já se foi?
Sei lá... teve domingo também.
São quatro em quatro em anos
dentro de um único lapso de dia.
Tenho sobrevivido
e o dia 29 de fevereiro continua marcado
no calendário sem importância
do dia após dia.
Um sentimento bissexto,
completamente aleatório,
dispensável apesar de necessário,
só para que a rotação continue
em uma quarentena regada
aos olhos do que mais tememos.
E eu tenho rodado, como eu tenho (...)
e estou cansado de tanto rodar,
de tanto anseio sem definição,
das palavras escritas que caíram do teto
e se espalham em meio às roupas jogadas.
Não tem fim,
nem um começo.
E eu aqui, escrevendo para o tempo
que parte de novo e me parte de jeito,
escorrendo sem pressa nenhuma,
mas com toda a velocidade
que poderia se dispor.
Que assim seja!
Que assim seja!

Douglas Ibanez 
(18/08/2020 - 2:39)


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Ah (...) o céu!


Eu olhei para o céu
e vi o céu.
Enchi os pulmões
com o presente que me dava,

guardando um de seus
dentro da imensidão que era
estar apaixonado pela liberdade
que o lado de dentro me permitia.

Eu me via
e ele me ampliava,
me deixava solto em minha imagem,
me amava exatamente

pela possibilidade de me livrar
de amarras que sussurram.
Ele me grita no ar,
me desenha nas nuvens,

como um pedaço de arte
forjado para ser livre.
Há grades entre nós,
há graves entre todos,

mortos e feridos,
e ele ali, me reconhecendo de volta,
me acarinhando ao dizer meu lugar,
que não se cumpre.

O amor pelo céu que eu vi,
me viu de volta e disse
o quão nele eu estava,
por em mim eu estar,

sem meios nem meios
de chegar onde eu não quiser,
pois o que eu queria me queria
e me liberava de dentro para o mundo.

Douglas Ibanez 
(12:17 - 23/04)


segunda-feira, 29 de junho de 2020

O lidar que me nasceu


O dedilhar singelo da ansiedade,
em notas de melodia
flutuando nos limites da imaginação
de minha linha periférica do sentir.

Levanto-me inteiro, pelo braço direito,
e transpasso o véu que me cobre de noite.
Sonhos inquietos num caldeirão
girando diante dos meus olhos.

São densos, periodicamente complexos,
dentro de sua individual complexidade,
com tamanha fartura de liquidez
que me escorre pelos cotovelos,

me banhando,
me encontrando
e se despedindo a cada novo toque
que deixou eternamente para trás

ao tocar o novo
e penetrar o desconhecido.
Meus dedos dançam,
meus sonhos os beijam,

e eu me envolvo numa coreografia,
com a prudência do improviso sussurrando
pelo meu corpo:
um eco e um sopro

de um depois que preciso
deixar para trás.
Eu preciso, sim, e dedilho as mesmas notas
que me consomem pelo controle.

Um abstrato girando, contorcionismo
de palavras minhas - letras que inventei!
Eu as escrevo durante o banho
e vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem...

Douglas Ibanez 
31.05.2020 - 1:00


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Grãos do Amanhã-Agora


Eu desmorono
e o fragmento escorrega
pelo meu corpo tão fraco
feito de carne e ossos,
que se sentem tão expostos
no alto de minha vulnerabilidade
sensível
ao meu próprio toque.

Nem sempre há respostas, entende?
Quando a terra desce sem motivos,
por motivos de tremores,
ela deixa suas naturezas
remetentes
para trás, num ponto de vista único,
entretanto,
descompleto, desperdiçado e espalhado.

Eu sinto o arrepio
coçando meu peito
de dentro para fora,
buscando orifícios por onde possa
desaguar sua poeira,
complexa
em sua busca pela vida
no entendimento do que vem depois.

Se ao pó tornarás,
porque o derramo?
O seguro na mão, ansioso,
soprando castelos que
se desmancham,
assim como eu.
Eu sinto os tremores,
e não me seguro.

Douglas Ibanez 
(29.05.2020 - 1:23) 

domingo, 17 de maio de 2020

O Garoto que Sabia Demais


Eu me olho no espelho e encaro,
com a sabedoria de um esquisito senhor,
um garoto que não sabia mentir
sobre o que achava de si mesmo.

Há um pesar em seu olhar solitário,
que nunca se perdeu pelos caminhos
que por aí conheceu.
Muito pelo contrário!

Somente o enriqueceu e o cobriu
de toda a certeza de que o mundo é o seu lar,
tão belo como um potinho de vidro
coberto por gotas da chuva.

Ah e os meus cabelos se alteram como alma,
tão sorridentes que brilham no reflexo,
como se escrevessem páginas mistas
de todos os amores-próprios que poderia sentir.

E há maior substantivo próprio
do que amor que próprio assim se torna,
depois de tanta simplicidade dita a si mesmo,
como uma palavra com letra minúscula?

Eu sinto o vento no rosto,
calmo como deve ser.
Inspirador aos extremos
das raízes letradas que me constroem

e o esquisito senhor me consagra,
finalmente depois de tanta graça,
como o garoto que sabia demais
e de menos e de mais um pouco ali além.

Douglas Ibanez 
(18.02.2020 - 21:14)



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Nasceu uma rosa na laranjeira


Há um eu no meio do nada,
Sob um foco de luz, respiramos.
Sem teu colo como nunca houve,
Onde palavras se decolam.

O eu levanta os braços, com plumas,
Laranjas como os laranjais, longas,
Distantes como aquelas que ele colou.
Distorce o passado e repuxa o que veio.

No ápice do descobrimento, bem lá,
Há outra cor estrangulada, sem efeito,
Nem defeito: não poderia - pretérito.
Não vai se ter, perfeito mais que futuro.

Uma rosa no laranjal, desconhecida,
É bruxaria!
Feita de magia bruta, bruxa e natural,
Uma força da natureza, embebedada de algo.

Um beber do eu, tão bêbado quanto o equilibrista,
Chorando aos ratos, sem entender-se,
No paraíso que lhe veio a imagem,
Como restos de um vídeo que se foi.

Vestiu o chapéu, o príncipe dos ratos,
Com orelhas ouvintes a detalhes assíduos!
Um, dois e mais! São pratos, são limpos,
Sem toque ou destoque, somente a imensidão.

E é imenso, como é, o que batia ali dentro,
Fosse o amor ou a fome - ambos,
Quem sabe?
Pois o gato comeu-lhe o próprio sorriso. Foi isso.

Brilhou em espirais com plumas ainda pelo corpo.
E depois pediu perdão, olhando aquele ano,
Ajoelhado em si mesmo, como quem não se entende,
Dança o teu caminho, não o nosso! Não!

Mas tanto faz, no fim das contas.
Já era, já foi. O caminho era longo e pedia botas.
Armas para uma guerra, do eu contra eu,
Sem música exata. Sem arte cabível!

Correu pelo seu, chegou a algum,
Gostou do que viu e ali se sentou. O eu, sabe?
Se amarrado, como um livre elástico,
Esvaiu em um triste flácido movimento pardo.

Sentindo-se horrível, perdeu o seu rosto,
Procurou em si mesmo, nos outros, no palco.
Olhou a plateia, não tinha ninguém.
Era isso: sem o alguém.

Tons pastéis injetados nos olhos da máscara alva
Que lhe escorriam corretamente
O que as mãos tentavam esconder,
Os olhos nas palmas, assim eram.

Do alto do pé caiu-lhe uma laranja,
Cortou o elo. Sentiu o choro que veio,
Pedindo arrego pelo calor do seio,
Lhe dando de mamar com mais do tal eu.

Se dança em lambuzal,
O suor rega,
Do linóleo nasce
Aquela desgraça tão envolvente.

Chocado no chão, decide aprender a andar,
Com paus que encontrou perdido do lado de fora,
Que foram seus em outros dias,
Tão distantes quanto as plumas que o outro colou.

Anda nas pernas, anda!
Encobre suas mãos, reaprende e vai embora,
Degola o agora e decora o que é teu.
Participe de um particípio, do presente.

Deveras,
Sem teias.
Sem alturas com vista da queda,
Com o baixo desorganizado, do tipo que se organiza.

Desandou e se foi, com folhas da rosa,
Maldita, porém eterna - no peito.
Banhado pelo seu suco, doce como um gomo,
Caído como uma gota.

O longe era o eu do tal foco,
Em quatro faixas escuras, marcadas previamente,
Sentado em assentos vazios,
Desesperado em acordar sem querer de si.

Laranja como a laranja,
Nascida do amor da terra,
Paciente ao longo da vida, perdida, tão perdida, coitada,
Sem fogo para o diante adiante do eu.

Douglas Ibanez 
(1h17 - 27.11.2018)


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Raposa


E essa minha mania
de me perder nos detalhes que crio, exatamente, para não me perder.

São mapas geométricos,
que definem uma ordem libertária
numa obra ré primária no quesito liberdade.

Eu corro por meio de listas,
danço por entre espaços de uma linha e outra,
sinto o vento na cara, nas mãos, nos pelos.

Ah, o prazer da perfeição!
Corre, escorre e perfura como goteira,
gozado como o orgasmo, molhado como a ferida.

Perdido feito um tiro inocente,
que mata no meio da rua por olhos tortos demais,
com audiência desconhecida e palmas de gente morta.

Eu corro no meio do mato,
me deito em terra vermelha, bagunço
a bagunça de minha existência.

Laranja como meu pelo, no meio: silêncio do meu costume.
Olho as estrelas, de olhos fechados,
escrevo um poema, sem pena, em pontos traçados do resistir.

Douglas Ibanez
(10.08.2019 - 02h05)
Feliz aniversário, Doug!
:) 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Artéria


Arte não é arte,
é artéria
que abre caminho, despeja
e me inunda com força, sem freio.

Me leva de volta, se encaixa
nos encaixes tão escondidos,
como natureza estando presente,
vivendo no soco de todos os dias.

É lá que ela explode,
deflora, reflora e floresce, borbulha em cores
e letras, sem melodia,
em canções invisíveis que bombam.

Escorrendo por todo o meu corpo,
por todo o sagrado.
É aquarela, é meu, sou eu
e transborda ao mundo pela verdade,

minha verdade,
que inspira e transpira perfeccionismo,
perfeccionista!
Calculado, real em movimentos.

Olho o que olha de volta.
Reflito sob olhar faminto do irreconhecível,
seria eu um produto perecível,
digno de entrar na boca do outro humano?

Seria arte chorar?
Seria ela sentir o que for o que vida lhe dá?
Se o poeta se finge, na beirada do real,
seria eu o realista quase caindo no abismo do fingimento?

Eu agonizo no palco, danço minhas letras,
que, com licença, fazem sentido no meu contexto.
Sangrei, sigo pingando,
cansado e me envolvendo em meu gozo

tão pessoal que só eu sei ler.
Grito no pulsar de um nirvana,
vejo a luz escorrendo em meu rosto,
que escorre por uma veia e retorna à exatidão.

Douglas Ibanez
(19.08.2019 - 23h23)



quinta-feira, 4 de julho de 2019

Espectro


Eu olho ali para a minha frente,
tão perto do que eu tenho.
É azul e laranja, tão tênue
quanto um sopro de vida e morte.

Sinto medo.
Escuto o piano
tocando coisas
tão tênues quanto o azul e o laranja,

uma canção que eu havia de repelir,
que não queria, por já querer.
Ficou velho como o laranja amassado,
podre como o azul vencido.

E agora? Deixo seguir, deixo escorrer,
como uma certeza tão louca
que pula do abismo, completamente nu,
respirando devagar o laranja e o azul.

Vejo rostos, sem olhos e sem barbas.
Inspiro ao agrado
e desenho o contorno laranjamente,
no azul salpicado que reflete o céu.

Erroneamente, não quero nomes,
quero liberdade de escolher ao léu,
o laranja que ama a si mesmo,
no composto do azul no banco de réu.

Vi nuvens e medos, ainda os vejo,
mas os deixo azul claro que também é vida,
com gosto de alma que continua perdida,
laranjeando a si mesmo

com gosto
do aqui,
do ali e
do acolá.

Laranja
como o que sou,
um novo azul
como o que há.

Douglas Ibanez
(04.07.2019 - 01h10)


sexta-feira, 28 de junho de 2019

Fagócitos


Eu nado na beira do mar,
sinto aquela areia escura.

Entre meus dedos,
entra em meus beijos - esquisito.

Me puxa para baixo,
mordisca minha pele, desvejo

e desejo o aperto.
O escuro me aconchega, sem fardos.

Mas afasto para outro dia,
quem sabe mais tarde?

Precisamos marcar! Revejo
sem ansiar pelo raso daquela praia,

mais uma vez. Já basta, sabe?
Eu olho torto, limpo meus poros

entupidos de areia cinza, escura,
molhada com restos do mesmo,

tão qual já foi, tão qual já é.
Faz parte de ti, entende?

Eu entendo!
Mas receio pela beirada,

que nunca deixa de beirar
o que tem no meio,

tão oco, tão fundo,
vazio como uma represa,

que mata,
sussurra.

Douglas Ibanez 
(18.06.2019 - 01h58)


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Puto


Noites são feitas para os meus poemas,
Escritos por um puto que não consegue dormir,
Pensando na arte que lhe goza na mão
Como letras de quem morre de amor.

E eu amo, como amo!
O reflexo do espelho que minha lua me mostra,
Contando os detalhes do colorido
Que desce em arco das nuvens ao meu dispor.

Também há os tons de casas velhas,
Fotografias antigas e rosas 
Em meio a livros que eu mesmo escrevi,
Cuja letra eu tombo sublime como minhas ideias.

Eu abri a janela sem perceber,
Em busca do ar que a noite me entrega,
Comendo pedaços da lua, da minha de novo,
Tão dourados quanto o sol da manhã seguinte.

Esfrego os pés, crio faísca, luminária! 
Poesia? 
Faço um arco, desenho minha dança, 
Desço em minha cama e descanso, me inspiro.

Repouso sem saber quando, 
Tão puto quanto estive sempre, às beiradas, 
Me toco em despedida, escrevo, 
Confesso, me entrego desgonexo e desapareço. 

Douglas Ibanez 
06.05.2019 - 09h05



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Cansado de todos vocês


Portas cerradas, lado a lado
De uma parede gelada.
Escuto gemidos, escuto perdidos,
Perdidos no ventre.

Então entre!
Não precisa bater, mas me bata,
No corpo, na cara,
Na alma lavada em torcer absorto.

Olho no mágico do olho,
Olho-me olhando de volta.
Boca torta, vontades ilusórias
Em desilusões de daqui a cinco minutos.

Na próxima, olho-me sem o eu,
Que não é o mesmo que o meu.
Nos conhecemos, perdidos,
Perdendo vazio... beijando o vácuo.

Eu conhecia todos eles,
E eles conheciam todos de mim.
Luzes se apagam, lâmpadas estouram
Como reflexos à velocidade cortante.

Quando eu era mais velho, há segundos,
Eu não entendia.
Seria o conhecer do outro o intuito
De uma frequente forma de covardia?

Douglas Ibanez 
(24.04.2019 - 1h25)

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Da minha janela


Eu sou míope, sabe?
Entretanto, esta noite, tirei os vidros
Na curiosidade de ver, antes que acabe,
O que escuto com meus ouvidos.

Ah!
Cheiro de noite, vazio de tão cheio,
Repleto de foices e doces,
Da verdade crua das esquinas que não noto.

Eu vejo no fundo, luzes, desmioladas,
E voto para que estejam
Sentadas no horizonte, balançando pernas.
São menininhas.

Bolhas de luz espalhadas, civilizadas,
Contando a história de um sono interrompido,
Desnutrido por sua fissura,
Bebendo d'água no frio do momento.

Olho a mesa, mesmo que míope,
Toco a brochura e o dever me chama.
Falta tinta, falta vontade.
E eu volto para o horizonte - como amo!

Percebo outras luzes,
Longas como serpentes.
Estão vazias de um dia que dormiu.
Eu sinto o suor e o barulho.

Vejo essências andando, como almas
Em contraste com suas sombras,
Vagando em batalhas
Em universos isolados, que sorriem.

Está tudo bem e as bolhas de luz,
Aquelas mesmas, lá do começo,
Também andam pelas serpentes,
Devagar, como parasitas bem-vindos.

O cheiro do ar é inconfundível,
Aroma do sono que me foi tirado,
Gelado como um beijo tardio,
Renovador como banho salgado.

Douglas Ibanez 
(06.05.2019 - 1h18)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lactose


Vejo a lua ali,
Do lado de lá
Da rua de cá.

Tão linda, que formosura!
Me chama depois (...)
Proclama nós dois.

Não a via como outrora,
E desvi de tanto ver.
Já sei bem, sua beleza.

Como lua me devora,
Feito água em pedra dura,
Desgastando, desgostando.

Foi-se uma, peguei ranço.
Veio outra, bela mente.
Brilho eterno, com lembranças.

Do queijo,
Do beijo
E do novo, de novo.

Douglas Ibanez 
(16.12.2018 - 01h31)