segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Entre Aspas


Existe tanta coisa a ser dita em um depoimento que jamais foi escrito. Não vejo motivos para impedir o que sinto, muito menos em gritar minha fúria em ecos que o vazio leva. Não há respostas. O ar se agita em uma linha que fura a barreira do som e agrava a sombra que emerge em euforia. Culpo os astros que mapeiam a angustia - um jogo de planetas de gude em aposta alta. Perco o respeito e uma noite de sono. Onde mora a dignidade em um sussurro de insônia? Quero eu desbravar meu vácuo, sem memórias de um aquário sem vida. Onde há água, há esperança. Mesmo sendo uma ilusão descrita em etapas, entre aspas, voando em asas à decepção.

Douglas Ibanez
(06.11.2015 - 22h22)


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Familiar


Tão desdenhados em sua sugerida simplicidade,
Como se fossem pedras que o caminho fez questão de desperdiçar.
Mas há uma beleza em tais olhos castanhos
Que o outro não se contenta em admitir.

São terras brutas paridas do chão,
Que buscam em detalhes um paraíso - uma explicação.
Constroem em si mesmas montanhas de desencanto,
Enquanto tocam o céu sem deixar razões que lhe soltem do berço.

Um mapa deserto sem coordenadas em um abraço de mãe.
Não há medo em plantar o que tem para colher,
Já que o que brota é vida após vida em um brilho antiquado,
Cuja história se tornou areia em vidro torto de buracos sem fundo.

Existe um calor que cresce em formato de gente,
Sem distinção entre curvas desenhadas a dedo.
São olhos que repetem familiares palavras de aconchego:
Te cospem na luz e te cobrem quando tudo chegou ao fim.

Douglas Ibanez
(28.10.2015 - 15h06)

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Persona


Há um lugar para um fechar do horizonte com pálpebras da meia noite, onde sinto o cheiro do sangue que me salga os dentes enviesados em carne. Faço as pazes com uma escuridão que outrora me disfarçou em culpa. Me cuspiu na cara o medo que jamais senti. É aqui que estrangulo poesia em uma cumplicidade atônita com o verdadeiro, sem chances de lutar contra a morte, já que sempre pulsa uma desesperada misericórdia aos joelhos do que se pergunta ser. Escuto sotaques que o poeta concede - um brilho na letra com maestria de uma ópera escrita. Um diálogo e uma confissão. Há sempre uma lágrima que molha minh’alma, desrespeita o esdrúxulo - corrupto! - e joga em areia, coberto às poeiras, o meu coração.

Douglas Ibanez
(15.09.2015 - 22h54)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Je Voudrais Danser


Bocas coladas escrevendo na chuva.
É como sexo com a pele sentida,
Espalhando memórias que nascem da nuca.
Se entrelaçam na língua como oitavas que descem para sempre.

É fazer amor ouvindo música,
Com arrepios cruzando olhares dispersos
No apreço do tempo, enquanto segundos.
Eu gemo em um giro. Me ondulo e sussurro.

Cada gota uma poesia.
Intimidades abertas descobrindo o escuro,
Transcritas no suor de luzes. Em foco.
Me encontro à ousadia da exposição extremista.

Prometo verdades com olhos fechados.
Seguro os cabelos que grudam no rosto, me torno humano.
Meus dedos amam em sintonia do acaso. Desejo em ritmos.
Constroem um espetáculo vendado à essência.

Me dedico ao não permitido,
Regido a toques e gritos silenciosos.
Respirar me leva a um infinito só meu,
Que suspira pedindo prazer ao socorro risonho.

Existe algo nas margens que beiram o pecado,
Que diluem o mundano em minutos de amor eterno.
Não há nada a ser visto em um gozar aplaudido.
Me deixo levar e desisto. Existo.

Douglas Ibanez
(14.09.2015 - 17h)
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Ephemera


Três nuvens em forma de vento me escapam entre os dedos em parcelas simplistas de algodão doce. São três carneirinhos que pulam do céu, cantarolando cantigas até eu dormir. Quando tento tocá-los, se desmancham em alguma coisa que não sei o nome, mas continuam desenhando no ar, como uma partitura de uma canção cheia de desenhos múltiplos de outras coisas, que também não sei como nomear. 

Meu indicador coordena um caminho disforme, com curvas em todas as direções. Parece um rio de nevoeiro branco daquela manhã sinistra, cujo dia se esqueceu de nascer, escondido atrás das gotículas de azul desperto. Me surgem memórias em paisagens distintas, em posição de lótus para uma oração só minha. É estranho observar caminhos em uma brincadeira de paz difusa. Uma aura que o coração sopra, o momento relembra e tudo se desfaz outra vez.

Douglas Ibanez
(24.08.2015 - 19h32)


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Direcionamento Confuso


Não sou bom em palavras diretas ao ponto.
Elas se tornam sem graça ao meu ver criativo.
Um jogo tão rápido que se perde no ganho.
Decisão sem volta. Aperte o gatilho.

Sempre flertei com palavras cruzadas.
Encantadoras serpentes que hipnotizam.
Meus dedos são flautas, que seduzem o caminho.
Constroem um discurso que você nunca ouviu.

Melancolia que pensa no latim às avessas.
Não suporto a ideia de me igualar ao comum.
Brinco de mago, ao transformar as fronteiras
Em uma transparente parede sem riso nenhum.

Um mímico.
Meu senhor palhaço que canciona em rosa.
Respiro a poeira que bagunça tudo.
Desnecessária rinite. Correria do luto.

Grito poesia no lugar de verdades.
Não permito o acaso sem pincelar meu artista.
Me guio no escuro apalpando o muro.
Choro por unhas que descobrem tinta.

Que escandaliza: SINTA!
E te expulsam daqui. 

Douglas Ibanez
(14.07.2015 - 00h28)


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Que Eu Quero?


Queria pousar em uma pista de voo, com destino direto à emissão claustrofóbica de um quarto fechado. Deitar-me nas sombras de uma escuridão qualquer. Não tenho exigências. Tampouco ordens condecoradas com eufemismos. Só preciso silenciar o momento que desconcerta toda a bagunça que se devaneia em mim. Sem mais filhos carentes: bastardos alegres. Seus corpos em epilepsia noturna. Os desligo com o finalizar de um estrobo. Não quero olhos. Não quero dentes. Sem bocas, sorrisos e afins. Tiro-me a roupa e me visto de um céu estrelado que me conforta em destreza do que quero assim. Giro o botão em um longo caminho, com mais de um pouquinho de própria comunhão. Você pode participar, contanto que não me leia. Busco aquele que não saboreia minha dose de ilusão. Venha, estou aqui.

Douglas Ibanez
(22.05.2015 - 00h17)