sábado, 22 de julho de 2017

Pele


Odeio esse muro que me barra de frente e me deixa confuso, sem saber como ir. Eu crio uma linha que costura meu corpo, puxando com força uma articulação que estudo. De repente me vejo ligado ao concreto, sem porta ou batente, quebrando o latente que bate de frente com uma rima infame - insolente. Mas eu amo o inteiro, que me consome por dentro, sem eu poder te tocar. Na parede eu respiro e assimilo o presente, constante na mente de um prazer em estar e eu olho com gosto seu rejunte de pedra, tão doce aquecido que me transborda. E finalmente eu entendo, quando o calor me entrega o que eu queria para mim, sem mãos ou janelas, somente na espera de um olhar sem fim.

Douglas Ibanez
(14.7.2017 - 00:15)


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Sujeito


Sei mais nada
Do frio,
Todo oco
Por dentro.
Fora o repleto,
Tão perto
Do teto.
Sem-teto.
Deserto e molhado,
Como um rio
Que se foi.
E se vai,
A nado dotado,
Em cheio,
Tão cheio,
Que cai.
Sem freio,
No meio
Do bosque sem flor
Ou sabor,
Da vida sem jeito,
Do amargo no peito
E daquilo no amor.
Tão belo
Tão feio.

Douglas Ibanez
(3.7.2017 - 20h45)


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Eu sou gentil


Cristalino como uma memória quebrada em mil pedaços de vidro temperado. Quando imagino que já se foi - já se volta. E eu levo na cara, como em brincadeira de mão: ou vira briga, ou vira sexo. Eu viro a raiva do descontentamento. E não dá para ver um futuro quando a bola é derrubada do meu colo sem um pingo de delicadeza, escancarada nos meus olhos que permanecem cegos, além de vermelhos. Existem frestas que possibilitam sua passagem. Me sinto atacado, me sinto falhando, falhado e falhoso (se é que isso existe). Senão eu invento! E não há nada o que você possa fazer, pois eu sou eu e você é essa incrível capacidade de me fazer não saber mais o que é isso. É foda.

Douglas Ibanez
(30.06.2017 - 17h32)


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sabor e Obsceno


Tá aí um segredo do qual eu gostaria de compartilhar: sinto sua humanidade escorregando pelos meus dedos. Enquanto isso, massageio seu interior tão regado a escolhas malandras, um mar de opções tão perto do toque. Eu molho as pontas como quem se desmancha na lava, fervendo algumas esquisitices que eu tento tentar. 

Eu aperto e deslizo. Descubro carnes batendo tão longe do certo, que não percebo a sanidade murmurando o obsceno de meu ato. Eu apenas beijo o que o corpo reverbera em minha língua: palavrões em um contorno de pele, contorcidos, sedentos e suados. 

Te pego com a palma da minha mão (com a alma da minha fome), coloco no peito, mastigo na boca - acaricio a palavra que meus olhos querem pousar na sua natureza torta. Não há poesia morta! Só tenho lambido o que permaneço, verdadeiro e com falhas ao longo do cômodo.

Douglas Ibanez
(21.6.2017 - 23h16)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Escrito e Abstrato


Eu sou um recipiente de letras que se inspiram em ser o que são. Uma mente oca com significados que flutuam sem natureza específica: elas tocam as paredes do meu corpo, comunicando o que quero dizer - só que sem dizer. ABSTRATO e possivelmente sem rimas, mas ainda assim são poemas que eu crio aleatoriamente naquilo que você vai enxergar - sem pressa para ser verdade e com o dever cumprido ao entregar um mito chamado de EU.

Douglas Ibanez
(7.6.2017 - 3h10)


domingo, 7 de maio de 2017

Cappuccino


Está escuro aqui dentro e eu só consigo te ver, como uma sombra sentada sobre minhas pernas, ronronando - arranhando minhas sensibilidades - para que eu não o toque por inteiro. Não preciso, de fato.

Novamente e agora: te olho (ou seja, observo os detalhes que você não vê) no sorriso e sorrio com o cafofinho que fez para si diante de mim. Queria escrever histórias sobre sua pele, mas dedilhar letras me parece uma melodia mais racional, apesar de eloquente.

Te vejo (todos os dias) como cappuccino meio-amargo: indecifrável por ser meu pedido diário, mas com todo o sentido quando me aquece sem exageros. Ronrona de novo, me abraça por engano (me deixo enganar) e eu te bebo.

Quando encosto meu pé no seu, te toco na alma - sensível como um tapa na cara, que arde apaixonadamente ao contrário. Quente e perplexo como um pulsar de calor que se desfaz. É espuma marrom clara (imediata) se dissolvendo em abstrações que continuo a amar, enquanto tomo um gole a mais.

Te enxergo e me solto no oceano escuro (espero seus olhos me encontrarem quando a lua estiver lá no alto) balançando meus pés como menino crescido, sem medo de viver o que tiver que ser.

Douglas Ibanez 
(8.4.2017 - 3h7)




quarta-feira, 3 de maio de 2017

Só indo


Precisamos nos perder
Sem olhar para trás,
Somente encontrar no amanhã
Um passarinho para usarmos o VOAR.

Você dançaria comigo esta noite?
Até o nascer do sol, se for possível.
Meus braços em seu pescoço
E os pedidos perdidos nas estrelas.

Vamos esperar a chuva chegar,
Nos pegar pelos dedos e nos beijar.
Somos crianças brincando
Em um jardim de infância sem fim.

Sorria e siga ali (para mim).
Lhe fecho os olhos aos sussurros,
Sopro promessas de dias eternos.
Pegue minha mão e venha!

Douglas Ibanez 
(8.4.2017 - 3h23)