segunda-feira, 9 de abril de 2018

Dadear: Dança da Lua


Pisei na terra. Os grãos afofaram o dia a dia
de meus pés cansados. Sobre a cabeça, a luz branca
onde o coronário transluz como alma sendo um vapor.
Eu olhei para cima.

Dancei sob a lua uma coreografia que era,
mas tão era que era apenas minha. Nem sua foi!
Entretanto, eu lhe dei cada oitava em passos largos,
sedentos por aquela fumaça tão bem-almada,

onde a terra ainda (...)
conseguia enxergar. Fechei os olhos, girei, rodei,
descobri o que era e larguei de mão - se soltou ao mundo
e voltou para mim. Me ajoelho, a terra brilhando.


Douglas Ibanez
(06.03.2018 - 14h43)


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Crise de Identidade: Carne Maluca (Louca)


Era um pontinho laranja
naquele tudo tão branco.

"Como podia ser tão branco
sem haver nada ali dentro?",
Se perguntava alguma voz
que não se achava muito lunática.

O ponto disse que sabia,
mesmo sem saber.

"Se você fala comigo,
quer dizer que tudo está com nada dentro?",
Tão danada, essa caralha!
"Cala a boca, sua louca, maluca, doidona!"

Retorcida, eu diria.
O contrário da palavra, intocada.

Exagerou, como quer nada,
mas olha só, ele corria pelo espaço!
"Eita pontito abobalhado,
corre, corre e volta e meia cai pro lado".

Senhor pontoso só olhava,
onde o chão ele descia.

"Como pode, vossa alteza,
ser tão próximo do alvo?",
devolve a coragem, essa droga de coisinha,
tão marrenta, ascendente!

No caminho da rodada, laranjeiras
marcam a hora de crescer: misturar-se.

"Simbora minha amiga, chega dessa,
me embora e não degola, olha a vida",
olhava agora, sem querer olhar pra fora
era aquele o caminho.

O pontuado pontuou, sem pressa.
Meu... olha a arte, minha gente! Olha a arte!

Douglas Ibanez
(28.02.2018 - 1h30)



quinta-feira, 22 de março de 2018

Dadear: Historicamente


Uma gota de neve, que se jogou,
Encontrou a raposa em seu focinho.
Então olhou como quem não queria,
Mas queria que não queria querer.

"Que droga!" - Disse a nevinha.
"Que droga!" - Disse a raposa.
"Que assim seja!" - Disse alguém louco.
E cá estamos, amando a loucura.

Douglas Ibanez
(28.02.2018 - 1h39)




quinta-feira, 15 de março de 2018

Crise de Identidade: Interlocução


Quero ouvir uma música, quando não quiser não vou avisar. Só vou parar e é isso, assim, simples como o vento, o tempo ou qualquer outra rima mequetrefe que eu possa vir a querer usar. Mais óbvio que isso, só falando sobre rimas em um texto letrado, sem paciência para mim mesmo: abestalhado. Pobre criatura essa segunda, de segunda a segunda sem saber entre se é segunda, segundas ou nenhuma mesmo. Deplorável, eu diria. 

Sorrio e reviro os olhos - sem sexualidades, beleza? Pelo menos não agora. Aquilo ali tem se esgueirado como humor em começo semanal, tenho sono mas abro os olhos, não perco de jeito nenhum, mas detesto, sem "odeios" ou rodeios, essa gravidade alimentícia. Gosto muito. Gosto tanto que não perco nenhum pedacinho. Lambo os beiços! Mas dou é nada... só me cubro e resmungo. Sai daqui, volta lá! Pega eu e vai-te embora, vou-me agora, sem demora... olha a rima maldita voltando. Desgraça!

Douglas Ibanez
(28.02.2018 - 1h09)


segunda-feira, 5 de março de 2018

Crise de Identidade: Gomos


Balanço a cabeça, eu sou um borrão. Mil faces abrem a boca, gemem com gosto - gengibre velho lambendo minha garganta, relativamente. São meus pescoços se enroscando, ardidos como um tilintar, que de tanto canto nos cantos sumiu numa poeira sem graça - quanta ironia. Pegou fogo, repentino, um tesão entre um beijo do eu e do eu, rasgando-lhe as pernas, com marcas e tapas.

Derrubo seus pés, lambo seus dedos, sabendo o que iria encontrar, mas o uivo se esvai com uma voz gutural. Me sinto velho com dores na consciência por continuar escalando a mim mesmo - até sinto o suco de laranja me tocando pelos pés, como cócegas, sem graça, que me derrubam morro abaixo em uma poça suculenta de cabeças totalmente minhas. Balanço meu corpinho, não há nada. 

Douglas Ibanez
(26.02.2018 - 16h04)


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Não me dirijo


Parei e olhei o meu vidro. Vi a calçada correr como quem não quer nada, mas em busca de sonhos que nem ela sabia onde iriam desaguar. Se chegou, eu faço a mínima ideia. Da última vez, ela virara uma esquina sem graça, abrupta, brusca e ao completo longe do meu ponto de vista. 

Opiniões? Sei lá, sei não. Elas não costumam prestar de qualquer forma. Observei por meio do vidro da frente e revi o mundo parando em uma gota de chuva. Escorria por um caminho torto, claro. Quando dei por mim: estourou e quem foi que ouviu as milhões de vozes fazendo uma prece? Sua.

Bons tempos virão, me disse o passado disfarçado de música. Eu ouvi calado, pensativo, pelo rádio. Um suspiro me estendeu a mão como um pretérito, tão perpétuo que doía. Para sempre é tanto tempo que eu o queria em repúdio, correndo sem hora marcada, somente gritando meu profano e sagrado. Desgraçado e com remelas de uma noite recém pensada. Criei.

Douglas Ibanez
(15.02.2018 - 22h44)


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Craquarelando


Meus ouvidos racham.
Não gosto do que vejo.
Dou tapas na cara,
Naquilo que tenho.

Sem flores dessa minha vez.
Com medo do mundo.
Minha aquarelada
Insensatez - destes e daqueles.

Douglas Ibanez
(27.01.2018 - 3h)