segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Enigma Sazonal


Olho o espelho,
te vejo sorrindo.
Me culpo sem culpa,
sem boas-vindas.

Continuo olhando, agora
sua expressão corporal.
Ela fala comigo, certeza,
mas é dúbia - um tabuleiro.

Não entendo.
O silêncio bate o martelo
e minha filosofia funciona.
Há algo que eu sei que há.

Como te chamo?
Uma distância levemente gelada,
sem perigos de voos quaisquer.
Isso te serve? Protege?

Sem abraço, mas o sentido me diz.
Aquele sexto que te é de orgulho.
Eu também tenho: detalhes,
uma colcha de retina bem aberta.

Minutos - tudo passa.
Me revejo e questiono,
só penso, nada mais.
Devolvo no beijo um mistério de cada vez.

Douglas Ibanez
(18.11.2015 - 00h30)
 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tarô


Sente no muro,
me olhe - me diz!
Estou navio no escuro,
sem diretriz.

Percorre meu corpo?
Labirinto sem céu.
Me encontra na mente,
uma estrela cadente - sem calda e ao léu.

Tenho lido cartas
que o destino me tira,
eles riem sem jeito - sem cara!
E me contam mentiras - mentiras.

Douglas Ibanez
(11.11.2015 - 0h33)


 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Choro


Rego a planta que nasce podre, 
de raízes incertas e difundidas.  

 Grito o plano que me acerta em cheio, 
sem paciência para hematomas. 

 Vejo o lustre que se apaga ilustre, 
repleto de ideias que se foram sem ir. 

 Conto uma história nascida torta, 
que me tampa as visões de uma verdade vivida.


Douglas Ibanez
(26.10.2015 - 1h07)


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Entre Aspas


Existe tanta coisa a ser dita em um depoimento que jamais foi escrito. Não vejo motivos para impedir o que sinto, muito menos em gritar minha fúria em ecos que o vazio leva. Não há respostas. O ar se agita em uma linha que fura a barreira do som e agrava a sombra que emerge em euforia. Culpo os astros que mapeiam a angustia - um jogo de planetas de gude em aposta alta. Perco o respeito e uma noite de sono. Onde mora a dignidade em um sussurro de insônia? Quero eu desbravar meu vácuo, sem memórias de um aquário sem vida. Onde há água, há esperança. Mesmo sendo uma ilusão descrita em etapas, entre aspas, voando em asas à decepção.

Douglas Ibanez
(06.11.2015 - 22h22)


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Familiar


Tão desdenhados em sua sugerida simplicidade,
Como se fossem pedras que o caminho fez questão de desperdiçar.
Mas há uma beleza em tais olhos castanhos
Que o outro não se contenta em admitir.

São terras brutas paridas do chão,
Que buscam em detalhes um paraíso - uma explicação.
Constroem em si mesmas montanhas de desencanto,
Enquanto tocam o céu sem deixar razões que lhe soltem do berço.

Um mapa deserto sem coordenadas em um abraço de mãe.
Não há medo em plantar o que tem para colher,
Já que o que brota é vida após vida em um brilho antiquado,
Cuja história se tornou areia em vidro torto de buracos sem fundo.

Existe um calor que cresce em formato de gente,
Sem distinção entre curvas desenhadas a dedo.
São olhos que repetem familiares palavras de aconchego:
Te cospem na luz e te cobrem quando tudo chegou ao fim.

Douglas Ibanez
(28.10.2015 - 15h06)

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Persona


Há um lugar para um fechar do horizonte com pálpebras da meia noite, onde sinto o cheiro do sangue que me salga os dentes enviesados em carne. Faço as pazes com uma escuridão que outrora me disfarçou em culpa. Me cuspiu na cara o medo que jamais senti. É aqui que estrangulo poesia em uma cumplicidade atônita com o verdadeiro, sem chances de lutar contra a morte, já que sempre pulsa uma desesperada misericórdia aos joelhos do que se pergunta ser. Escuto sotaques que o poeta concede - um brilho na letra com maestria de uma ópera escrita. Um diálogo e uma confissão. Há sempre uma lágrima que molha minh’alma, desrespeita o esdrúxulo - corrupto! - e joga em areia, coberto às poeiras, o meu coração.

Douglas Ibanez
(15.09.2015 - 22h54)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Je Voudrais Danser


Bocas coladas escrevendo na chuva.
É como sexo com a pele sentida,
Espalhando memórias que nascem da nuca.
Se entrelaçam na língua como oitavas que descem para sempre.

É fazer amor ouvindo música,
Com arrepios cruzando olhares dispersos
No apreço do tempo, enquanto segundos.
Eu gemo em um giro. Me ondulo e sussurro.

Cada gota uma poesia.
Intimidades abertas descobrindo o escuro,
Transcritas no suor de luzes. Em foco.
Me encontro à ousadia da exposição extremista.

Prometo verdades com olhos fechados.
Seguro os cabelos que grudam no rosto, me torno humano.
Meus dedos amam em sintonia do acaso. Desejo em ritmos.
Constroem um espetáculo vendado à essência.

Me dedico ao não permitido,
Regido a toques e gritos silenciosos.
Respirar me leva a um infinito só meu,
Que suspira pedindo prazer ao socorro risonho.

Existe algo nas margens que beiram o pecado,
Que diluem o mundano em minutos de amor eterno.
Não há nada a ser visto em um gozar aplaudido.
Me deixo levar e desisto. Existo.

Douglas Ibanez
(14.09.2015 - 17h)