quarta-feira, 11 de maio de 2016

Colheita


E a vontade lateja
um pedido de alforria.
É uma ferida que vibra,
se desmancha.

Ela engole seus próprios pedaços,
que caíram no chão,
sem explicação para o apetite,
que cozinha palpites em meros abraços.

Nefastos, brincam de aleluia.
Se jogam na tela como mosquitos,
perseguindo luxos que criam asas,
mas morrem na praia, pedindo atenção.

Eu abrigo os sem-nexo,
como um coração estéril,
de um jardim fértil de embriaguez.
Frígido e com maçãs podres ao longo do dia.

Douglas Ibanez
(27.04.2016 - 00:15)


quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ciranda de Onças


Vejo pintas
Onde não havia como haver. 
De repente surgiram, 
De repente, gritaram.

O rugido amargurado,
Ecoa como ecos de solidão
Raivosa, pedindo respeito, 
São crises da criação. 

Um talento de postura, 
Que se deita em amargura, 
Mais uma vez sem saber nada. 
Escreve momentos, respira palavras. 

Se um soco lhe atinge,
Enquanto enrola o teu rabo, 
Suspende o corpo e tateia o suspiro. 
Engarrafa na noite, em um umbigo. 

O cordão é pretensioso, se desprende, 
Desprendido.
Há menos dentes que fúria,
Embebido de gula - atraído.

Douglas Ibanez
(27.04.2016 - 0h44)


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Há de ver


Há tanto
e há nada.
Há sempre
o adeus.

Há o simples
desgosto.
Há o dengo,
que prometeu.

Há algo
sem haver.
Há tudo,
sem se ver.

Há eu
e o não eu.
Há o meu
e há o seu.

Há coisas
conversadas,
há letras
bem versadas.

Há sentido
sem sentido.

Há o agora
e não demora
e há o lá fora
aqui dentro.

Há o peso,
há o pesado.

Há o eu mesmo
não notado.
Há no escuro
o que há de estrelado.

Douglas Ibanez
(27.04.2016 - 0h24)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

E a Rosa Despedaçada


Foco! Quando a rosa se deu corda, sete pétalas brilharam em um vermelho distinto, no horizonte tão perto. Estava ali, ao alcance de meus dedos. Podia vê-la sentada, com as pontas esfoladas, sem vontade de se levantar outra vez. Havia tão pouco que o cravo saíra do palco - as luzes se foram em uma tormenta que ninguém entendia, um chacoalhar repentino de folhagens desrespeitosas, que amarelas de raiva despedaçaram um pedaço de amor.

E ali ela ficou, por mais um tempo. Um jardim passou por sua vida, sem nem notar, ao menos, seus abraços solitários aos joelhos sangrando. Mais pétalas escorriam - era o anúncio de algo - e o sol surgia como quem nada queria. Girassóis giravam em roda. Há busca por luz, quando o mundo chega ao seu fim? Não sabia dizer. Ela estava por ela, mas a plateia aplaudia seu estado de culpa e espremia arte de um fruto que nunca haveria de nascer no outono. Foco!

Me dei conta do espetáculo. Foco! E mais pétalas caíram. Ninguém a via, nem sentia seu odor, destruído por damas noturnas que riam com singular desespero. Quando a memória se tornou ideia, tão doce e singela, o iluminador começou o poente, defendendo aquele cravo, diziam as boas línguas, doente. Quem perguntou de um despedaço do outro? Era assim que as cortinas se fechavam: uma história acabada, em uma inacabada, que um e outros insistiam em não assistir.

Douglas Ibanez
(18.04.2016 - 15h31)












quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Silêncio e a Morte da Bezerra


Quando a mente resmunga, boa coisa não vem. Ela se mexe no berço, descobre os pescoços e chora outra vez. São gritos tão fortes que acordou a vizinha! Que berrou com o filho - verdades não ditas. E a mente ouviu e chorou mais um pouco. Tinha fome do seio que o pai não sabia lhe dar, por fatores biológicos, certamente óbvios, que só sabiam limitar. 

Uma criança recém-pintada, virando entre os lados, com sono e sem jeito. Irritado. De olhos arregalados em uma estrada no fim da cama, com todos os faróis esverdeando uma liberdade intensa e perigosa. Era o problema da ira, uma dançarina fogosa, que acordava a mente, cada vez mais chorosa.

Isso não passa. Tampouco promete parar. Mas eu a pego no colo, balanço em meu peito e a amamento no escuro de um silêncio leitoso. Brota do corpo naturalmente e me fascina sem jeito, pensando no nada e em nada - parece até gente! Que momento gostoso. Sorrio e deito (tento) de novo. 

Douglas Ibanez
(13.04.2016 - 23h58)


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sopa de Letrinhas


Cada gota uma letra,
uma palavra que escorre,
desenrolando sentenças

de morte.

Uma estrofe bendita,
que conta o que sofre.
É o contrário de histórias,
cascatas, em choradeiras.

São páginas novas,
de uma leitura tão velha.
Um livro de pó, que ao pó retornou.
É sem vida, a vida vivida.

Douglas Ibanez
(02.04.2016 - 0h52)


terça-feira, 29 de março de 2016

Respirações


Eu sei que o que sinto é triste,
ao mesmo tempo que me recorda gracejos.
Não consigo contar alegrias,
já que elas permanecem perdidas, ressentidas,
de algo que nem elas entendem direito.

Tem um garotinho chorando ao meu lado.
Ele pede carinhos que eu sei lá como fazer,
algo entre o cafuné e o abraço bem forte.
Na dúvida, choro com ele
e respingo lágrimas como um toque que não foi.

Quem passa, não sabe o que se passa,
nem muito menos tenta enxergar o ocorrido.
É normal, é normal… eu sei.
Eu sei lá.
Não sei, não.

É estranho.
Um senhor está fungando, do outro lado da rua,
como se houvesse um caminho
e no meio, a lua!
Ele entende das coisas, mas parece perdido. Eu sei.

Continuo chorando, sem culpa,
dos efeitos do sol, que se uniu
à chuva.
Faço a mínima ideia de onde partir,
por isso não mexo, nem deixo, o céu abrir.

Só deito no banco, com a cabeça 
no colo do menino.
Respiro e desrespiro. Sumo um pouquinho.
E o velho me acude, como uma viagem no tempo,
sem tempo, e parado na hora que aquilo aconteceu.

Douglas Ibanez
(28.03.2016 - 16h19)