domingo, 11 de março de 2012

Curiosa Verdade


Passo a passo na calçada. Quatro patas em pleno desenvolvimento de auto-crítica. O rabo se agitava como um radar de alegria. O focinho lhe mostrava onde estaria a curiosa verdade que tanto buscava nos últimos dias.

Observou ao passar, sem lhe faltar com a intimidade, o colega da casa ao lado sorrindo, em plena felicidade. A nova coleira recém-chegada do estrangeiro enfeitava seu pescoço felpudo em um brilho característico de valor alto, do tipo difícil de se conseguir. Principalmente quando se é necessário para calar um latido expressivo. Eletricidade custa caro. Silêncio e harmonia custavam muito mais.

A futilidade costumeira era pouco ao seu longo interesse. Ossos e chinelos alheios não passavam de uma boa distração. Seu objetivo se concentrava em encontrar o real descobrimento escondido de uma vida cheia de carinhos ao pé da lareira, de um fogo brandindo sob a plena falta de paixão.

Surgiu o rabo-de-saia. Quem sabia se não conseguiria um realejo? Resolveu na piscadela que a esbelta da vizinha não seria boa ideia. Ela era prometida. Compromissada. Tinha pose de boa santa, mas era na verdade uma assanhada. Se encontrava com um mínimo de múltiplos ao troco de uma ninhada. Para a dona viver feliz, ela sempre triste e os machos se livrando de uma enrascada.

O cão era manso em seu jeito usual. O andar debochado a estampar uma malandra camaradagem mexia com o ego das cadelas enxutas das madames de fina estampa, enquanto as vagabundas vira-latas se derretiam pela possibilidade de um sonho noturno não acontecido. Além, é claro, dos bons amigos da vizinhança e seus pedaços de linguiça das sobras do jantar de ontem, que seus donos se recusavam a lhe oferecer.

O que lhe parecia uma brincadeira de filhote se revelou uma tristeza. Criança há de ser pura, mas a pureza há de ser curta. Seis latas amarradas na calda do pobre cidadão, que pedia por ajuda, num uivo de desespero e breve depressão. As risadas não cessavam, muito menos deixavam de existir, começava ali um massacre, que nosso amigo não havia de assistir.

No todo, não havia sequer uma reclamação plausível ao cavalheiro malandro de pêlo lustroso. Sentava. Rolava. Se fingia de morto. Sabe, ele queria apenas fingir. Seu questionamento sempre fora profundo. Sua busca era por porquês convincentes para uma explicação de um viver de seu jeito. Daquele modo que lhe intrigava. Por uma resposta a suas perguntas mais distantes de um pensamento canino regado a normalidade comum.

Melhor amigo do homem é quem se engana. Deduziu nosso colega. Ao ver um amor estranhamente bacana, entrando num escorrega. Com toda educação que de sua mãe recebeu, analisou a vizinha com sua estima pelo animal em seu colo contente, achando que tomaria um banho e escovaria o dente. Mas na verdade estava enganado. No veterinário seria revisto e ao fim da sessão, executado. O espaço era pequeno e o barulho incomodava. A morte lhe cairia bem, nada mais lhe importava.

Vivia numa natureza do prazer que não lhe fazia parte. Quem era, era feito de pensamento. Construído a partir da indagação de um significado que não existia. Ele era um cão. Não. Ele era muito mais que isso. Uma alma livre. A liberdade era seu caminho ao eterno destino. O horizonte estava a sua espera e a felicidade chegaria ao seu encontro. O melhor troco por uma escolha irredutível.

O cão latiu se despedindo. Atravessou a rua e seguiu pela calçada até qualquer lugar de fantasia, onde ela o levaria.

Douglas Ibanez


Um comentário:

Roseli disse...

Que lindo texto Douglas! Amei essa visão do cão sobre o cotidiano canil.
Bjs