sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Quadraturas Diagonais


Eu não consigo estar na sua alma, por isso eu engulo o que me entrega dela e mergulho num oceano sem receio de me afogar. No escuro eu vejo brilhos de estrelas despertas, praticamente certas de tão erradas que são. E eu me olho no seu centro, uma luz vermelha entrando em combustão, com gravidade inexplorada, me puxando com força sem nenhuma explicação. Sou eu ali dentro - de cada cosmo que transparece e se desmancha em águas passadas, paradas e vividas. Isso me atrai, de alguma maneira. Me explodo em fagulhas que se exalam de mim - sou uma vela festiva que torce sem dizer o que espera. Se desmancha e espalha. São anos a luz até alguém conseguir ver e enquanto caminho, meus outros se olham e brilhantemente se tornam mais um pedaço do eu. Sem partir - sem estar, mas apenas estando e deixando tocar. 

Douglas Ibanez
(14.7.2017 - 00h30)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

No Sentido


Relógio,
me aguenta
torcer o ponteiro,
que roda a roleta.

Me joga
no trem que se esconde
em curva marota,
descendo a ladeira.

Não sei
o que não precisava,
para um cacho de uva
nascer tão nascido.

Eu jogo.
Não vejo.
Baralho e caralho,
sem duplo sentido.

Queria um carinho
de mim, sem demora.
Sorriso,
absinto

abstrato.
Do lado de fora.
Sem jeito,
buscando na vida o que me sufoca.

Ceifando o que se deita,
para ele não ver.
No chão não obedeço -
descrevo

uma gíria sem nexo.
Sou sexo
que respira,
me inspira,

a natureza tão morta
do movimento tão certo.
Volta do tempo.
O mago me escreve.

Douglas Ibanez
(26.7.2017 - meia-noite)




quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vem cá, guri


Bom dia para você que já veio e me olha no meio, como um passado já ido. Lá vem o menino deitando no escuro, escrevendo um poema proibido no muro. É grafite sem tintas rosas, chorando palavras que as flores não querem. Derrete a amargura em panela tão rasa, com espinhos caindo de um telhado tão frio. O garoto atropela, ajoelha e se reza, pedindo um mundo que nunca se viu. Não era ideal, tampouco curtido, somente um barulho, de certo bagulho, que soprou e saiu. Pobre criança que hoje lhes conta um cumprimento tardio de abdicação dos céus, sem ver as migalhas que lhe caíam da boca, sem credo ou vergonha de ver o que está ali. Me abraça, meu jovem, rapaz indefeso. Pensa em ti. Veja a si mesmo. Esquece este mundo que o mundo te entrega e se joga na cela de uma vida que segue. Não pensa em mais nada, nem meros porquês. Só pousa e se agita, gira e investiga, dança um voo que não se precisa. Dê a volta da ida... dê coisa nenhuma de coiso nenhum. Vem cá, guri.

Douglas Ibanez
(25.7.2017 - 23h22)


sábado, 22 de julho de 2017

Pele


Odeio esse muro que me barra de frente e me deixa confuso, sem saber como ir. Eu crio uma linha que costura meu corpo, puxando com força uma articulação que estudo. De repente me vejo ligado ao concreto, sem porta ou batente, quebrando o latente que bate de frente com uma rima infame - insolente. Mas eu amo o inteiro, que me consome por dentro, sem eu poder te tocar. Na parede eu respiro e assimilo o presente, constante na mente de um prazer em estar e eu olho com gosto seu rejunte de pedra, tão doce aquecido que me transborda. E finalmente eu entendo, quando o calor me entrega o que eu queria para mim, sem mãos ou janelas, somente na espera de um olhar sem fim.

Douglas Ibanez
(14.7.2017 - 00:15)


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Sujeito


Sei mais nada
Do frio,
Todo oco
Por dentro.
Fora o repleto,
Tão perto
Do teto.
Sem-teto.
Deserto e molhado,
Como um rio
Que se foi.
E se vai,
A nado dotado,
Em cheio,
Tão cheio,
Que cai.
Sem freio,
No meio
Do bosque sem flor
Ou sabor,
Da vida sem jeito,
Do amargo no peito
E daquilo no amor.
Tão belo
Tão feio.

Douglas Ibanez
(3.7.2017 - 20h45)


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Eu sou gentil


Cristalino como uma memória quebrada em mil pedaços de vidro temperado. Quando imagino que já se foi - já se volta. E eu levo na cara, como em brincadeira de mão: ou vira briga, ou vira sexo. Eu viro a raiva do descontentamento. E não dá para ver um futuro quando a bola é derrubada do meu colo sem um pingo de delicadeza, escancarada nos meus olhos que permanecem cegos, além de vermelhos. Existem frestas que possibilitam sua passagem. Me sinto atacado, me sinto falhando, falhado e falhoso (se é que isso existe). Senão eu invento! E não há nada o que você possa fazer, pois eu sou eu e você é essa incrível capacidade de me fazer não saber mais o que é isso. É foda.

Douglas Ibanez
(30.06.2017 - 17h32)


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sabor e Obsceno


Tá aí um segredo do qual eu gostaria de compartilhar: sinto sua humanidade escorregando pelos meus dedos. Enquanto isso, massageio seu interior tão regado a escolhas malandras, um mar de opções tão perto do toque. Eu molho as pontas como quem se desmancha na lava, fervendo algumas esquisitices que eu tento tentar. 

Eu aperto e deslizo. Descubro carnes batendo tão longe do certo, que não percebo a sanidade murmurando o obsceno de meu ato. Eu apenas beijo o que o corpo reverbera em minha língua: palavrões em um contorno de pele, contorcidos, sedentos e suados. 

Te pego com a palma da minha mão (com a alma da minha fome), coloco no peito, mastigo na boca - acaricio a palavra que meus olhos querem pousar na sua natureza torta. Não há poesia morta! Só tenho lambido o que permaneço, verdadeiro e com falhas ao longo do cômodo.

Douglas Ibanez
(21.6.2017 - 23h16)