sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Sua maior criação


Peguei meu copo,
Bebi veneno.
Desceu pelas coxas,
Morri sem medo,
Escorrendo enquanto descia,
Descendo por minha virilha,
Cheirando à naftalina.

Me viu em um dia
Apagando (...)
Me apagou.
Não merece o que planta,
Minhas plantas - o meu jardim.
Venenoso,
Ninguém pode comigo.

Sou seu filho, de nascença,
Sem crença, ou desavença,
Pois não posso,
Não digo, só choro - palavras.
Não há verde, verrrde, só VEDE.
Meu sentido não se faz,
Você entende?

Continua me apagando.
Só me sinto.
Sou aquela história, aquela,
Aquela mesma,
Que eu engulo
Regurgito.
De repente: nunca aconteceu.

Nunca.
Eu sei, eu me criei.
E eu sei que tu me quer,
Como quem não pede nada,
Sem levar em conta
Toda uma muralha
Que ajudou a construir.

Me emperfeito, com medo
De algo, do errado.
Mas eu erro, não posso?
Envenenado, morro.
Sem teu abraço, corro.
Com seu dedo, choro.
Sorrio, apesar.

Eu bebo meu sangue,
Seu sangue, no fim das contas.
God (...) please.
Se eu revirar os olhos,
Não é de prazer.
Só oro e não entendo,
Desprendo ao dizer.

Tomo um banho, dois,
Mais sete - perfeito (!),
Como me espera.
Quebrado, porém apagado:
Respira e engole o choro,
Moleque!
Fala grosso!

Dou voltas,
Mordo meu rabo,
Engulo meu corpo e cuspo,
Me cuspo - com nojo de mim.
Sou venenoso, me pico, sem pica,
Com picas e peço socorro.
Ninguém (...) poeira que alguém levou.

Douglas Ibanez 
(18.05.2018 - 1h46)


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Desportas


Eu só queria meu lugar
Onde não há ninguém.
Só por um instante,
Fechado nas portas, amarrado.

É como uma torre sem porta
De entrada, saída ou emergência,
Enquanto as emergências continuam
A passos largos, me dizendo "corra"!

E ao mesmo tempo
Que me sinto ingrato, eu me sinto
No direito de me dizer estar assim,
Como num casulo sem janelas.

Eu olho a porta aberta e me irrito,
Tão quanto as roupas tão perfeitas.
Estou vendo um eu que não quero,
Em um jogo de cartas estranho.

Blefando sem querer, mas preciso,
Pois não há sentido na ira,
Tampouco na birra de um sucessor,
Que cruza seus braços. Trancado.

Douglas Ibanez
(23.06.2018 - 1h04)


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Narcisos


Me quebra no meio,
Me lembra o que foi,
Me pega nos braços,
Me beija em abraços,
Me pede carinho,
Me acolhe no ninho.
Me choro só eu.
Me volto querendo,
Me grito ao sofrer.
Me olho perdido,
Me gira sorrindo,
Me gosto assim.
Me desgosto desse jeito.
Me detesto por isso,
Me entrego submisso,
Me engulo só pedindo.
Me esfrego,
Me espremo,
Me espero,
Me escapo,
Me explodo.
Me transcende e me explica!
Me possua, me tenha só seu,
Me come.
Me peça,
Me descabeça,
Me confunda e me confundiu.
Me destrambelha sem o teu viu.
Me apaixono,
Me perco,
Me apago, me apaguei.
Me morro,
Me morto,
Me morrendo me morri.

Douglas Ibanez
(23.06.2018 - 1h31)


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Conduta & Compostura


Madrugada, minha cara, tão escura e não barata, me confira, me confirma e me exclua, sem agora, nem nunca no depois sem necessidade de algo tão perto que é você. Pontuei e acho estranho. Só dei vírgulas e os ponto-e-vírgulas foram doloridos demais para alguém como eu que nem sei o que estou pensando direito, só deixando fluir como bateria de coração de mão de gente retardada - com o maior perdão da palavra possível, sendo isso possível. Conversa comigo, sua doida aí parada, mas tão rápida que dura pouco mais do que doze horas e eu te perco, escorrendo pelo meio das minhas pernas como cena pornoada de tão deselegante que possa ser: sua presença me mata de gentilezas e eu espero que você permaneça até eu me recompor. Ordem! E anda direito - um bofete na minha cara!

Douglas Ibanez
(02.04.2018 - 1h14)




quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Saturno


Do meu quintal olhei aos céus,
com anéis girando seco,
como o gelo ao meu redor.

Havia regras em sua voz,
tão grossa quanto sua paz,
que ali jazia tão tarde.

Fazia um círculo em datas,
me cobrava pelo o que me contou
e eu pelo o que nunca tive.

Me contive e o amarrei nos pulsos,
onde batia o meu coração
tão lento, parando.

Onde a vida corria
por veias redondas, grossas.
Grossas como somos grossos.

Meu saturno girando, me dizendo
que metade me abriga
e outra metade se cansa.

Que do meio me escreve,
no meio me encanta.
Sem dança, nas pernas uma trança.

No espaço o nosso espaço.
E me deve um novo laço, um amasso,
com gosto de abraço.

Douglas Ibanez
(15.08.2018 - 2h20)


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Estaca Zero


Voltei uma página para ver onde a inspiração me levava e descobri (olha só!) que minha letra é itálica. Torta como uma linha tombada depois de não passar pelo buraco da agulha, porém tão bela que não quis consertar. Não precisava de conserto, mas sim de concessão para escrever e escrever e continuar escrevendo mais, até eu me ver.

Douglas Ibanez
(21.03.2018 - 20h53)


quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Desaparecer: Buraco Negro


Nasceu branco, como um brilho na janela às onze da manhã. Explodiu, como milhares de fagulhas em meu peito, quando a cor virou catarata e me deixou sem vista para o que tocava tão sutilmente - eram cordas de um coração sem partituras para o precipício. Assim como hoje, pulando alguns dias de um calendário maluco que eu inventei, como se fosse uma carta escrita por um morador de rua, que vende poesias de porta em porta em busca de alimento para sua alma, escorrendo pelos seus dedos como letras sem contexto e moedas sem valor.

O coloquei no meio de um livro - o meu livro. Escolhi a página aos dedos, após lambê-los para folhear com uma cautelosa pressa que tive em me desrespeitar por opção. Revejo minha opinião: falha. Me amo? Me revejo, na verdade - me detalho, retalho e cantarolo pianices que eu achei que entendia tão bem. Eram folhas novas e ontem, só ontem, amareladas, como uma promessa envenenada que o relógio escreveu, com seu poema em ponteiros surdos. Duros, devaneios.

Está lido como (...) enquanto lido sem jeito de me fazer me entender o necessário, para o ser descer novamente, enquanto desaparece de maneira tão simplória. Eu falo francês: eu gosto disso. Meu rosto fica vermelho no vento gelado, me corta e me sangra e, quase que imperceptivelmente, me implode descabível de qualquer noção do que é o cima ou o baixo. Relevo-me em alto, bebo um gole, me sugo pela passagem e sumo de vista como um astro, caindo sem cair de uma altura, sem forças para ser medida.

Douglas Ibanez
(16.04.2018 - 01h29)