sábado, 8 de abril de 2017

Desmemorio


Eu nunca beijei as estrelas
e isso me parece tão errado,
em uma noite que cheira às maneiras
que você e eu devíamos ter ficado.

Nós nunca tocamos a chuva
e isso me lembra que não poderemos ir
ao lugar em que não vejo a culpa
me julgando de volta por me molhar e sorrir.

Queria assistir o mundo dos altos
com todos os sonhos que desenhei,
pegando sua mão - os dados aos laços
e a pele aquecendo o que sussurrei.

Douglas Ibanez 
(13.3.2017 - 00h01)



sábado, 1 de abril de 2017

Autópsia


Rasguei o pano para ver o que tinha dentro. Encontrei uma caixinha que me cabia inteiramente, lento, mas com espaço para o peito, ainda que no conforto do plenamente estreito.

Me deitei com jeitinho, como quem explora terras, me aquecendo a cada parte e bagunçando o que me levas - o todo resto (eu não presto). Só me leva, sem conservas. 

Deixa eu bagunçar você? Já dizia aquela voz, com meus dedos no cabelo, calculando o absorver de cada parte que eu gostava. Quero ver - com mais porquês de nossos nós (brancos) em volta de sua nuca.

Respiro o que me inspiro - e o pano continua ali deitado, relativo e amargurado (mas aberto ao meu suspiro), como doce de marrom glacê. Eu me viro assim de lado, sem vontade de saber. 

Tudo não está insípido, como você vê, mas eu busco um resultado (sem demonstrar o meu agrado) de um acesso alternativo, extremamente restrito, de uma forma a me encaixar e esquentar, enquanto piro.

Douglas Ibanez
(17.3.2017 - 1h6)



sexta-feira, 24 de março de 2017

Sol e Cera


Olhos fechados quando a vela pegou fogo - e assim ela brilhou como qualquer estrela na noite desconhecida. Deu se à luz! E o fogo encontrou em seu peito ceroso um pedaço de paz que não havia experimentado até então - apesar de escorregadio, era ali que vivia sua vontade de estar presente.

Havia calor em suas asas, que abraçaram o ar em volta para aquecer o que se perdia. Pouco a pouco a cera derretia por voar tão perto do sol, abrigando seus desejos de circular horizontes que, talvez, não quisessem companhia - mas estava tão quentinho ali dentro. Porque teria que ser assim? Porquê?

De mente fechada os segundos se cortaram - o fogo se apagou sozinho quando a vela se tornou vazia. Não havia nada presente! O escuro tomou conta da história que se contava sozinha: sem um, o outro era apenas queda livre, mas juntos se desfaziam em um paralelo distante, apesar de conjunto. Sem predileção de momentos: apenas beijos que se queimaram juntos - para sempre.


Douglas Ibanez
(4.3.2017 - 1h33)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Lábios Rachados


Está tudo tão perto do chão, caindo em pequenos flocos dançantes pelo ar congelante aqui do lado de fora. E ao mesmo tempo que eu procuro palavras para descrever o que é voar de verdade, sopro apenas fumaça no que continua quieto. 

Eu não entendo muito bem - tento segurar cada letra com dedos que transpassam seu haver de cordas cheias de calor. Pulsante. O mornaço me queima e meus lábios já estão rachados há um tempo, com o vento que acaricia meu rosto - uma metade azul e a outra sangrando, sem saber porquê, como ou quando o tempo virou. 

Mas a cidade é grande e eu estou acostumado a trocar de roupas a cada nova estação no pôr - nascer - do sol. Caso eu não esteja... estarei mesmo assim.

Douglas Ibanez
(4.3.2017 - 1h07)


sexta-feira, 10 de março de 2017

Valentine


Um milhão de margaridas para ver você sorrir, em um segundo de espera quando o ar vem do avesso - um recomeço - sem saber onde vai dar. 

Então eu digo na esquina, o que não vem para depois. Vejo olhos me olhando, me sorrindo como pontos que aprendi a costurar - todos cegos, que ultraje! 

Sem contar a maresia, me ajoelho e me entrego - de relance, bem pertinho. Como disse no poema: cinco tempos sem mais nada. Só discorro as palavras - e me vivo sem deixar. 

Douglas Ibanez
(16.02.2017 - 1h17)



sábado, 4 de março de 2017

(Meus) Velhos Jargões


Tem uma gota caindo na minha cabeça.
Um universo que se esparra-lhama no chão
sob o pensamento que sede à ternura
de uma fração gelada, que ainda canta.

Goteja sobre gargarejos que se repetem, 
com formatos pacíficos de uma janela aberta.
O vento recolhe o que se perdeu por ali, 
enquanto há uma história pairando em minha memória. 

Douglas Ibanez
(23h18 - 27.02.2017)



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Canalizado


Aquela necessidade de ser dito
Por um duto sem predileção,
Com um desfecho sem fecho,
Descendo sem freio,
Regado à inspiração.

Douglas Ibanez
(29.11.2016 - 9h47)