quinta-feira, 4 de julho de 2019

Espectro


Eu olho ali para a minha frente,
tão perto do que eu tenho.
É azul e laranja, tão tênue
quanto um sopro de vida e morte.

Sinto medo.
Escuto o piano
tocando coisas
tão tênues quanto o azul e o laranja,

uma canção que eu havia de repelir,
que não queria, por já querer.
Ficou velho como o laranja amassado,
podre como o azul vencido.

E agora? Deixo seguir, deixo escorrer,
como uma certeza tão louca
que pula do abismo, completamente nu,
respirando devagar o laranja e o azul.

Vejo rostos, sem olhos e sem barbas.
Inspiro ao agrado
e desenho o contorno laranjamente,
no azul salpicado que reflete o céu.

Erroneamente, não quero nomes,
quero liberdade de escolher ao léu,
o laranja que ama a si mesmo,
no composto do azul no banco de réu.

Vi nuvens e medos, ainda os vejo,
mas os deixo azul claro que também é vida,
com gosto de alma que continua perdida,
laranjeando a si mesmo

com gosto
do aqui,
do ali e
do acolá.

Laranja
como o que sou,
um novo azul
como o que há.

Douglas Ibanez
(04.07.2019 - 01h10)


sexta-feira, 28 de junho de 2019

Fagócitos


Eu nado na beira do mar,
sinto aquela areia escura.

Entre meus dedos,
entra em meus beijos - esquisito.

Me puxa para baixo,
mordisca minha pele, desvejo

e desejo o aperto.
O escuro me aconchega, sem fardos.

Mas afasto para outro dia,
quem sabe mais tarde?

Precisamos marcar! Revejo
sem ansiar pelo raso daquela praia,

mais uma vez. Já basta, sabe?
Eu olho torto, limpo meus poros

entupidos de areia cinza, escura,
molhada com restos do mesmo,

tão qual já foi, tão qual já é.
Faz parte de ti, entende?

Eu entendo!
Mas receio pela beirada,

que nunca deixa de beirar
o que tem no meio,

tão oco, tão fundo,
vazio como uma represa,

que mata,
sussurra.

Douglas Ibanez 
(18.06.2019 - 01h58)


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Puto


Noites são feitas para os meus poemas,
Escritos por um puto que não consegue dormir,
Pensando na arte que lhe goza na mão
Como letras de quem morre de amor.

E eu amo, como amo!
O reflexo do espelho que minha lua me mostra,
Contando os detalhes do colorido
Que desce em arco das nuvens ao meu dispor.

Também há os tons de casas velhas,
Fotografias antigas e rosas 
Em meio a livros que eu mesmo escrevi,
Cuja letra eu tombo sublime como minhas ideias.

Eu abri a janela sem perceber,
Em busca do ar que a noite me entrega,
Comendo pedaços da lua, da minha de novo,
Tão dourados quanto o sol da manhã seguinte.

Esfrego os pés, crio faísca, luminária! 
Poesia? 
Faço um arco, desenho minha dança, 
Desço em minha cama e descanso, me inspiro.

Repouso sem saber quando, 
Tão puto quanto estive sempre, às beiradas, 
Me toco em despedida, escrevo, 
Confesso, me entrego desgonexo e desapareço. 

Douglas Ibanez 
06.05.2019 - 09h05



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Cansado de todos vocês


Portas cerradas, lado a lado
De uma parede gelada.
Escuto gemidos, escuto perdidos,
Perdidos no ventre.

Então entre!
Não precisa bater, mas me bata,
No corpo, na cara,
Na alma lavada em torcer absorto.

Olho no mágico do olho,
Olho-me olhando de volta.
Boca torta, vontades ilusórias
Em desilusões de daqui a cinco minutos.

Na próxima, olho-me sem o eu,
Que não é o mesmo que o meu.
Nos conhecemos, perdidos,
Perdendo vazio... beijando o vácuo.

Eu conhecia todos eles,
E eles conheciam todos de mim.
Luzes se apagam, lâmpadas estouram
Como reflexos à velocidade cortante.

Quando eu era mais velho, há segundos,
Eu não entendia.
Seria o conhecer do outro o intuito
De uma frequente forma de covardia?

Douglas Ibanez 
(24.04.2019 - 1h25)

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Da minha janela


Eu sou míope, sabe?
Entretanto, esta noite, tirei os vidros
Na curiosidade de ver, antes que acabe,
O que escuto com meus ouvidos.

Ah!
Cheiro de noite, vazio de tão cheio,
Repleto de foices e doces,
Da verdade crua das esquinas que não noto.

Eu vejo no fundo, luzes, desmioladas,
E voto para que estejam
Sentadas no horizonte, balançando pernas.
São menininhas.

Bolhas de luz espalhadas, civilizadas,
Contando a história de um sono interrompido,
Desnutrido por sua fissura,
Bebendo d'água no frio do momento.

Olho a mesa, mesmo que míope,
Toco a brochura e o dever me chama.
Falta tinta, falta vontade.
E eu volto para o horizonte - como amo!

Percebo outras luzes,
Longas como serpentes.
Estão vazias de um dia que dormiu.
Eu sinto o suor e o barulho.

Vejo essências andando, como almas
Em contraste com suas sombras,
Vagando em batalhas
Em universos isolados, que sorriem.

Está tudo bem e as bolhas de luz,
Aquelas mesmas, lá do começo,
Também andam pelas serpentes,
Devagar, como parasitas bem-vindos.

O cheiro do ar é inconfundível,
Aroma do sono que me foi tirado,
Gelado como um beijo tardio,
Renovador como banho salgado.

Douglas Ibanez 
(06.05.2019 - 1h18)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lactose


Vejo a lua ali,
Do lado de lá
Da rua de cá.

Tão linda, que formosura!
Me chama depois (...)
Proclama nós dois.

Não a via como outrora,
E desvi de tanto ver.
Já sei bem, sua beleza.

Como lua me devora,
Feito água em pedra dura,
Desgastando, desgostando.

Foi-se uma, peguei ranço.
Veio outra, bela mente.
Brilho eterno, com lembranças.

Do queijo,
Do beijo
E do novo, de novo.

Douglas Ibanez 
(16.12.2018 - 01h31)


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Anxious


Eu acordo cedo amanhã, sabe?
E eu tento fechar meus olhos,
Como quem espera por um amanhã
De maneira tão perfeita quanto clara.

Mas vejo traços no meu teto,
De um amanhã nublado,
Espirrados na luz da noite do agora,
Por meio de minha janela fechada.

O vento gelado toca meus pés,
Propositadamente sem querer.
Quase como um carinho rasgado,
Nublado, de novo, por suas frestas.

Eu prevejo o despertar da música,
Meus olhos pesados e o sentimento
De quem fez cagada.
Seria minha culpa?

O que seria, no fim das contas,
O meu virar de corpo,
O cobrir de cobertas
cobertas por outras cobertas?

Eu descubro, o frio puxa meu pé,
Socorro! Grito pensando no daqui a pouco,
De outros tantos poucos, confusos
E agitados.

Ainda vejo o teto nublado de luz,
Sem calma por opções.
Eu acordo já já, entende?
E eu durmo, não?

Douglas Ibanez 
(03.04.2019 - 01h09)