quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O avesso


Me viro do avesso, enquanto troco de lado,
Revejo paisagens, moedas sortidas.
Da carne esponjosa me aparece a vontade,
Sem gotas de vida, beirando a verdade.

Eu sei que eu posso morrer mais um pouco,
Bebendo do suco que escorre sem freio,
Pelo freio, gemendo de dor,
Quebrando suas partes, de dentro para dentro.

Desviei e reviro meus olhos tão bobos,
Me jogo no fogo dos ossos quebrados.
Eu jogo de quatro e lambo seus beiços.
Cortesia da desgraça, que me morde o pescoço.

Pelo cerne da coisa que a coisa se esconde,
Com o cansaço nas veias, que tanto pulsam, 
Desgrudam do couro, no coito, e batem de novo.
Eu sinto meus cheiros: dos céu e do grosso.

Douglas Ibanez
(5.12.2017 - 0h31)




domingo, 12 de novembro de 2017

Senhora


O céu lá fora
é cor de saco 
de pão.
Desbotado na mão 

da senhora,
que volta pra casa
com a vida no chão.
Sem hora,

com as solas em brasa,
chorando a calçada 
que lhe dá o empurrão. 
Cai a sacola,

derrama o perdão.
A vergonha na gola
que aperta a alçada 
do teu coração.

Douglas Ibanez
(10.12.2017 - 0h)



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Seu meu


Três cheiros eu senti,
Diferentes de aromas,
Com gosto tão pedido,
Tão bonito e delicado.

Romantizados como um livro,
Digno de choro no fim bonito.
Iracema choraria, tenho dito!
Sem sentido e eu te tenho

Como algo sem ter algo.
É estranho.
Só temos nosso agora
E quando vi não tenho mais.

Mas eu te tive aquela hora,
Mais do que eu mesmo.
Comigo sem meu jeito,
Só o cheiro.

Os três cheiros,
Que latem,
Me amaciam.
E o outro,

Que até hoje eu não conheço.
Continuo destendo
Sem perder a malandragem
De quem corta a madrugada,

Me lembrando do reter.

Douglas Ibanez
(0h - 18.10.2017)

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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Hipotenusa


Há coisas que eu não sei se são verdade, como meus pés em movimento. Eles seguem sempre a frente, sem saber que com a idade tudo fica ao meu relento, sem um pingo de fundamento sobre o que não precisaria existir.

Fiquei carente. Hoje, agora. Fazer o quê? Não boto pra fora e a garganta flameja, sem desistir do que você diz. Estou me lembrando daquele dia, seja onde esteja, foi nada que eu fiz. Só vi nos retratos, de risadas grotescas, um dedo do meio que não soube falar.

E eu me calei - me vi. Mas continuo revendo e dançando um ato de silenciar. Senti o sem ti. O que isso seria? Me sentei na geleira que cantei ao passar, com pressa ao virar ali do lado, sem saber o que encontrar. Seria dessa ou daquela para a pior das hipóteses?

Perdeu-se o anel. Perdi a vontade (momentânea). Vou atrás das mesóclises, que ganho bem mais. Ainda não sei se existe algum réu, mas me envolvo com os tais, que não trazem verdade, nem nada do inferno, do terno ou do acaso tão raso do céu. 

Douglas Ibanez
(26.9.2017 - 0h54)



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Doce do Doce de Batata-Doce


Sério,
Santo,
como pode
e enaltece

o seu vidro,
quando o meu -
o meu vidro
- todo quebrado

de teus casos.
Amassos e
recheios
tão gostosos

e fogosos,
como doce em pira fresca.
Sem preferência
pela frente ou pelo verso.

Só se veja
ao contrário,
do contrário (...)
não te leio,

mas desejo
sua verdade,
em mordê-la bem mordida.
Como mesmo.

Dou quem sou.
Em meu seio
tem seu selo
de quem pede.

Não gostou.

Douglas Ibanez 
(1.6.2017 - 2h2)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Cujo Drama


Se engrossa na ruela, 
minha vida.
Tão sortida de vivências 
que não ouso reclamar. 

É como mar que vai e volta, 
se pulando - se virando, 
incontando 
as benditas sortes, 

que eu não sei. 
Observo o trem partindo, 
tem mocinha ali no trilho:
- Socorro! Socorro! - me diz ela. 

Dá novela! E eu me encanto. 
Me escrevo nas vontades,
como poesia que o pó se tornou. 
Boto na cara - sou elegante. 

Danço pelado e assim continuo
nascendo. 
Morrendo do medo 
de me vestir, 

sem rir. E partir. 
Para o acaso do atraso, 
Da rima em cima da vida 
e da pena da mesma. 

Deixar-se. 
Deitar-se. 
De olhos fechados, 
querendo viver. 

Douglas Ibanez
(1.9.2017 - 1h49)
Happy Birthday, Doug!






sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Quadraturas Diagonais


Eu não consigo estar na sua alma, por isso eu engulo o que me entrega dela e mergulho num oceano sem receio de me afogar. No escuro eu vejo brilhos de estrelas despertas, praticamente certas de tão erradas que são. E eu me olho no seu centro, uma luz vermelha entrando em combustão, com gravidade inexplorada, me puxando com força sem nenhuma explicação. Sou eu ali dentro - de cada cosmo que transparece e se desmancha em águas passadas, paradas e vividas. Isso me atrai, de alguma maneira. Me explodo em fagulhas que se exalam de mim - sou uma vela festiva que torce sem dizer o que espera. Se desmancha e espalha. São anos a luz até alguém conseguir ver e enquanto caminho, meus outros se olham e brilhantemente se tornam mais um pedaço do eu. Sem partir - sem estar, mas apenas estando e deixando tocar. 

Douglas Ibanez
(14.7.2017 - 00h30)