segunda-feira, 6 de maio de 2019

Da minha janela


Eu sou míope, sabe?
Entretanto, esta noite, tirei os vidros
Na curiosidade de ver, antes que acabe,
O que escuto com meus ouvidos.

Ah!
Cheiro de noite, vazio de tão cheio,
Repleto de foices e doces,
Da verdade crua das esquinas que não noto.

Eu vejo no fundo, luzes, desmioladas,
E voto para que estejam
Sentadas no horizonte, balançando pernas.
São menininhas.

Bolhas de luz espalhadas, civilizadas,
Contando a história de um sono interrompido,
Desnutrido por sua fissura,
Bebendo d'água no frio do momento.

Olho a mesa, mesmo que míope,
Toco a brochura e o dever me chama.
Falta tinta, falta vontade.
E eu volto para o horizonte - como amo!

Percebo outras luzes,
Longas como serpentes.
Estão vazias de um dia que dormiu.
Eu sinto o suor e o barulho.

Vejo essências andando, como almas
Em contraste com suas sombras,
Vagando em batalhas
Em universos isolados, que sorriem.

Está tudo bem e as bolhas de luz,
Aquelas mesmas, lá do começo,
Também andam pelas serpentes,
Devagar, como parasitas bem-vindos.

O cheiro do ar é inconfundível,
Aroma do sono que me foi tirado,
Gelado como um beijo tardio,
Renovador como banho salgado.

Douglas Ibanez 
(06.05.2019 - 1h18)

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