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Cadê?
Onde está o vermelho?
O Carmim?
A Flor morreu,
foi morta,
cortada,
quebrada,
e sua cor,
aquilo que de mais belo tinha,
sangrou
e apenas o negro do luto
continuou...
CABEÇA ANUVIADA

Como eu queria...
adoraria ver corvos saindo de minha cabeça
e vê-los dançar em meus cabelos...
talvez toda aquela negritude iria embora
tudo aquilo que pensei, não penserei mais
ou então alguma pena ou algum ovo continue..
e faça brotar lá dentro tudo o que já voou...
mas pelo menos a lembrança ficou,
para que eu posa dizer que,
pelo menos uma vez...
eu vi,
o vôo dos corvos...Douglas Ibanez
Sinto saudadedo branco inexistenteestampado em cada sorrisoem cada rosto lavadopelas águas de manhã.Sinto saudadedo preto leitoso do lutono qual cada um de nósusamos todas as noitescomo uma mantaesperando..esperando..esperando....Sinto saudadede olhar para frentee ver nada mais alémdo que apenas o desconhecidoo horizonte perdidoaquilo que meus olhos não podem vermas que minha almapode inventar.Sinto saudadedo choro noturnodo cão sem donoque uiva todas as noitespedindo abrigo do frioda chuvado trovão e da trovoadafugindo da solidãotentando amizadecarinhode tudo que é diferente delemas igual para ele...Sinto saudadede algo que não sei o que étalvez nem sinta saudadetalvez sinta saudade da saudadetalvez eu tenha inventado tudoo sofrimento inexistente que existe.Sinto saudadede mimde vocêde coisasdas lembranças que fazem ela vira saudade...que saudade?Talvez um dia eu descubra...Douglas Ibanez

Quem é você?
Eu sou eu
você é você.
Eu sou eu?
Quem sou eu?
Eu.
Eu?
Sim, eu.
Quem é você?
Você.
Eu?
Não, eu.
Não entendo.
Nem eu.
Você?
Não, eu.
Quem sou eu?
Eu.
Quem é você?
Você.
Somos eu e você?
Não,
você é você
eu sou eu.
Você sou eu?
Não, eu sou você.
Como assim?
Não sei.
Não entendi.
Nem eu.
Douglas Ibanez
Pode parecer o que chamam de "conversa fiada" tudo aquilo que eu escrever aqui, tentando explicar o motivo de minha enorme ausência. Por isso, não vou ocupar muitas linhas com desculpas e tentativas de convencer a você de que o motivo simples deste vazio que transcorreu o fundo negro deste blog por pouco mais que um mês foi a terrível falta de tempo. Isso pode estar aparentando ser uma desculpa deslavada pelo simples fato de ser um tremendo preguiçoso que passa o dia de pijama (o que parcialmente não é bem verdade) que está escrevendo aqui neste momento. Já são duas e vinte da madrugada, deveria estar de banho tomado e deitado na minha cama, me preparando para começar a ler um bom livro que ganhei de aniversário, mas ao invés disso estou aqui, motivado por uma amiga que acabou de criar um fotolog bacana, escrevendo e pedindo desculpas pela minha presença ardua (detalhe no tom irônico) a este lugar. Na realidade, creio que devo pedir desculpas mais para mim mesmo do que para vocês, afinal de contas, onde estive com a cabeça todas estas semanas em que não pude postar nem um texto neste blog? Provavelmente ela estava perdida na palavra FIM ou flutuando pelas emoções fortíssimas que estas três letras tão singulares podem passar para nós. Talvez ela estivesse vagando entre o plano do real e do irreal, chorando uma hora, rindo em outra... não sei... quem vai saber não é mesmo? Pois bem o que importa é que agora estou aqui pronto para escrever e publicar mais alguma coisa de sentido e significado incerto mas que considero uma grande façanha.Para quem não sabe, o texto que irei postar a seguir é uma crônica que escrevi para ser publicada em um livro junto a textos e poemas que vários alunos da escola onde estudo escreveram. Entre eles estão amigos meus, pessoas que conheço por apenas dar um simples "olá!" e outros que nunca vi nem falei em toda minha vida. O livro se chama "Vila Ré: Gente, Memória e Futuro" e foi publicado pela Editora Espaço Idéia a algumas semanas atrás.SENTIMENTOS DE NARCISO
A mulher comprara o peixe, o alface, a banana e a melancia e antes de ir embora daquela Feira da Municipal tão movimentada de terça, não pudera de deixar de comprar a bela fofoca que estava sendo vendida por cada senhora dona de casa que ali estava.
A primeira era sobre um rapaz. Morava no cruzamento de duas ruas não muito famosas do bairro junto a mãe e ao irmão e que deixara o trabalho e a casa para ir morar com a amante mais velha do que ele.
A mulher ouvindo aquilo, ficou indignada.
A segunda se tratava sobre um homem. Casado e bom marido, trabalhava durante a noite para pagar as contas. Enquanto isso, a esposa, fingida pela manhã, se satisfazia com seu amante na própria cama de casal dela e do marido que fora comprada a prestações e que ainda estava sendo paga.
A mulher ouvindo aquilo, ficou novamente indignada.
A terceira e última era, desta vez, sobre uma mulher que fazia aniversário de quarenta anos naquela tarde. Diziam as más linguas que a verdadeira idade da mulher era bem mais do que aquela que ela dizia ter, principalmente se fosse julgar pelas rugas que tinham em seu rosto.
A mulher ouvindo aquilo, ficou mais uma vez indignada e de uma vez por todas resolveu abandonar o bando de abutres que nada mais faziam a não ser fofocar sobre a vida alheia.
Andou pela rua rapidamente, virou a esquina e subiu a ladeira em direção a sua casa. A saia comprida e amarrotada batia em seus pés continuamente e sua barra já estava gasta de tanto encostar no chão. Ela estava indignada, ainda estava e provavelmente aquela indignação não iria acabar tão cedo.
Atravessou a avenida, cheia de carros, mas não olhou para os lados, desceu a rua tão velozmente que se alguém a chamasse ela não ouviria. Andou alguns metros pela Renato até parar em sua casa, que se encontrava vazia naquele momento. Entrou, colocou as compras na mesa e seguiu diretamente para seu quarto onde a penteadeira a esperava. Sentou-se, olhou-se no espelho e observou bem seu rosto, não era possível, não podia ser.
Sentada ali observando os próprios olhos, a mulher se debateu com uma realidade humana. Haviam descoberto. Seu maior segredo fora revelado. Todos os anos de mentira foram jogados fora. Não importava o amante, nem muito menos o marido, agora somente uma coisa estava em jogo. Ela não tinha mais quarenta anos.
Douglas Ibanez
Era seu último dia de aula. As provas já haviam terminado no dia anterior, ele não precisava estar lá, mas estava e estava sozinho em meio ao ranger mudo e calado das carteiras frias que um dia foram ocupadas.
Estava abatido pela solidão? Não, ele não estava, poderia estar fingindo? Não se sabe, afinal ele poderia ser ator, ou quem sabe poeta, um homem de duas ou mil faces? Qual ele estaria usando hoje? Talvez todas ou talvez nenhuma, o que importava era que estava lá, seja ele quem fosse aquele dia.
Reconheceu o lugar onde estava acostumado a sentar-se e se aconchegou feito um bebê no colo da mãe. Abriu o caderno, pegou seu lápis, uma caneta azul, outra colorida e uma borracha, ajeitou-se mais um pouco e se preparou para a sua última aula naquele lugar.
De repente, não mais que de repente, mas esperado por sua mente a porta se escancarou e do lado de fora entraram vozes, risadas e brincadeiras que o menino tanto conhecia. Quantos caminhavam pela sala? Não se sabia, eram milhares de pés e pernas se entrelaçando e se misturando a poeira da solidão tão recentemente e brilhantemente extinta pela escuridão de suas pálpebras.
O garoto sorriu. Sentiu que seu eu estava claro agora, se fragmentando e se sentando em cada carteira ao seu redor. Ele não fazia parte deles, nunca fez, de alguns talvez, mas eram eles que faziam parte de seu interior, que construiam seu sorriso matinal e seu choro finalista depois de perder mais um dia do cotidiano infinitamente vivido.
As graças e as brincadeiras aumentaram, a felicidade era grande naquele dia chuvoso e ensolarado. A voz rouca e forte do professor ecoou pelos seus longos túneis denominados ouvidos que se atencionaram ao ouvir mais uma vez a risada, agora vinda do professor.
Eles se divertiam, eles que sempre alegraram até o mais triste palhaço do circo destruído pela tempestade. Fantasmas que trouxeram a alegria de viver e o motivo para o garoto abrir os olhos pela manhã e dizer que sim ao que é bom.
Era seu último dia em sua segunda família, sua última risada inoscente no cotidiano monótono feliz e infeliz, sua última lágrima escorrida por seu rosto brando, sua última olhada ao seu eu dividido e que não voltaria mais, seu último adeus como igual... a última vez que olharia no espelho e o veria inteiro, reluzente...
O garoto abriu os olhos. A sala estava vazia e o pó solidário lhe fazia companhia. Tudo estava como antes, mudo e mortalmente parado. As carteiras não se mexiam, as cortinas estavam intactas. As risadas e assovios se perdiam, lentamente ecoante, na cabeça do garoto. Seu caderno estava cheio de palavras, sentimentos e memórias. Tinta e pó misturados nas lembranças que ali estiveram, sentadas nas carteiras, abrindo e fechando a porta, escrevendo na parede... sua última lição estava feita por todos os últimos e últimas que lhe fizeram companhia naquele tempestuoso dia ensolarado e que seria o último de sua vida deixada para trás.
Douglas Ibanez
30 lágrimas de novembro:a cada dia que o tempo leva deixa uma lágrima para trás.Uma lágrima por dia, trinta lágrimas por mês, uma lágrima por hoje, uma lágrima por ontem...será a última a de amanhã?
Ao todo serão trinta,de trinta chorei trezetreze lágrimas de lembrançastreze lágrimas de tristezaesperando o momentode dizer até logomesmo sabendo que para alguns será um adeus.Douglas Ibanez
O menino brincava na calçada. A calçada brincava com o brinquedo. O brinquedo era a brincadeira do menino. E nada mais importava. Ele só queria passar uma tarde se divertindo em seu pequeno mundo simples e despreocupado chamado de infância. Naquela tarde, do outro lado da rua onde um enorme muro separava os pedestres da linha ferroviária, um grande e barulhento trem cortou uma linha inesperada e consigo trouxe novas sensações e pensamentos. Agora o menino não se sentia mais menino e sim outra coisa que ele não sabia dizer o que era. Possuía sensações que ele nunca tivera antes na vida e isso o fazia duvidar, perguntar e questionar sobre sua verdadeira função naquele lugar. Então com uma grande curiosidade, deixou seu brinquedo na calçada e atravessou a rua afim de descobrir algo que ele ainda não conhecia. Com a ajuda de uma escada e de sua força, o menino subiu sobre o muro e após se sentar pode observar o que estava além daquilo que ele conhecia, ele pode saborear o que o desconhecido lhe oferecia. Sem saber exatamente o que era, viu algo denominado cirrose, o câncer e a overdose. Viu pessoas sendo mortas por outras pessoas e mais pessoas sendo mortas pelo trem que acabara de passar minutos atrás. Então ele percebeu que o mundo não era feito de coelhos e cachorros como ele imaginava, mas sim do lixo cinza e apodrecido do cotidiano humano com o qual somos obrigados a conviver todos os dias de nossas vidas. Ao descer do muro naquela tarde, o menino não decidiu que função daria para sua vida, mas sem saber, havia denominado inconscientemente o sentido da mesma, ele se tornara escritor.Douglas Ibanez